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Brasil tem mais de 6,5 milhões de empregos verdes, revela dissertação de bolsista da Cátedra Escolhas

6,4% das vagas estão atreladas à área ambiental em setores considerados verdes na economia brasileira, como de água, esgoto e gestão de resíduos e transporte aquaviário, segundo Paulo Braga

Eduardo Geraque 

Com a crise climática cada vez mais aguda e a cobrança crescente dos setores produtivos globais por insumos e produtos ambientalmente corretos, sem prejuízos ambientais, a tendência é que ocorra uma transformação do mercado de trabalho, a partir da abertura de mais vagas dentro da chamada economia verde. Ao desvendar essa refinada contabilidade, dentro dos vários setores produtivos que atuam no Brasil, o economista Paulo Eduardo Braga Pereira Filho, bolsista da Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente, obteve seu grau de mestre, nesta quarta-feira (29/04), na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba. O programa de bolsistas da Cátedra Escolhas, que conta com o apoio, entre outros, do Itaú

A economia brasileira tinha, em 2015, um total de 6.539.973 de empregos considerados verdes – que são as atividades que contribuem diretamente para o desenvolvimento mais sustentável -, o que representa 6,415% da quantidade total de empregos no Brasil, calculados na dissertação “Empregos Verdes no Brasil: uma via Matriz Insumo-Produto”. Orientada pelo professor Joaquim Bento de Souza Ferreira Filho, a pesquisa foi apresentada a uma banca de professores em uma sessão remota organizada pela USP para manter as regras estaduais impostas pela pandemia do coronavírus.

Uma das grandes inovações do trabalho, segundo Pereira Filho, foi o desenvolvimento de uma matriz insumo-produto verde usada de forma pioneira para a obtenção dos seus resultados. Normalmente, o modelo insumo-produto, bastante usado em análises econômicas semelhantes, serve para se entender como os setores produtivos de uma determinada região compram e vendem uns para os outros, por meio das chamadas transações intersetoriais. A mesma metodologia permite analisar também como funcionam transações dentro de cada setor.

A partir disso, então, o economista dividiu cada setor produtivo em duas partes, a chamada parte verde e não verde, ou seja, neste segundo caso, são áreas que produzem bens que beneficiam o meio ambiente (bens verdes) e bens que não beneficiam ou que agride o meio ambiente (bens não-verdes).

“Desenvolver uma matriz insumo-produto verde é fundamental para mensurar a existência de empregos verdes, e explorar os impactos que um crescimento verde poderá gerar em toda a economia”, afirma o pesquisador. “Outra vantagem em usar a matriz insumo-produto verde é a possibilidade em fazer dois tipos de análises, o esverdeamento dos setores já existentes e o surgimento de atividades consideradas verdes que atravessam vários setores”. Além do desenvolvimento inédito da matriz de análise, a metodologia apresentada por Pereira Filho inovou na definição de empregos verdes, que considerou apenas a área ambiental.

As análises mostram que existem três setores que podem ser considerados totalmente verdes na economia brasileira. O setor de fabricação de biocombustíveis, o de água, esgoto e gestão de resíduos, além da área de transporte aquaviário. “Ele é um setor considerado como 100% verde porque ele é uma alternativa, dentro de setor de cargas, ao transporte terrestre, um grande poluidor. A implantação de hidrovias tem um custo mais baixo do que a implantação de uma rodovia, por exemplo. Além, também, do frete hidroviário ser 40% mais barato do que o frete rodoviário e 70% do ferroviário”, explica o economista.

Outros 35 setores da economia também investigados, como o de energia elétrica, gás natural e outras utilidades entraram no grupo dos “parcialmente verdes”. O setor energético, inclusive, é o primeiro da lista deste segundo grupo que mais gera empregos verdes, com uma taxa de 94%.

Aparecem também bem ranqueados, os setores de fabricação de celulose, papel e produtos de papel (64,1%), produção florestal, pesca e aquicultura (64%), produção de ferro gusa/ferro ligas, siderurgia e tubos de aço sem costura (40%) e fabricação de máquinas e equipamentos elétricos (32%).

“A quantidade de empregos verdes no Brasil é uma proxy para mostrar quão verde está a economia brasileira. É um caminho que evidencia como os processos produtivos estão incorporando práticas que reduzem os impactos negativos ao meio ambiente, além de mostrar como eles estão conservando os recursos naturais”, afirma Pereira Filho. O trabalho mostra que em 20 dos 35 setores considerados parcialmente verdes, a geração de emprego do lado verde é maior do que o lado não verde quando ocorre uma variação positiva na demanda final de cada uma destas áreas.

Em termos setoriais, segundo o economista, a pesquisa revela um dado importante para políticas públicas relacionado ao setor de energia elétrica, gás natural e outras utilidades. “Este setor é o que tem mais condições de dinamizar a economia. Ou seja, quando esse setor sofre um aumento na sua demanda final ele “puxa” o desenvolvimento de vários outros setores”, afirma o pesquisador.

 

Sobre a Cátedra

A Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente conta com o patrocínio do Itaú. A iniciativa contempla o Programa de Bolsas Cátedra Escolhas, que oferece bolsas de mestrado e doutorado para estudantes de pós-graduação interessados em estudar Economia em sua interface com o Meio Ambiente. Conheça os bolsistas e os trabalhos desenvolvidos por eles nas redes sociais do Instituto Escolhas.

Desde 2016, a Cátedra já beneficiou 23 bolsistas de diversos estados do Brasil, sendo que onze já defenderam a tese.

 

PodCast Escolhas No Ar

“Empregos verdes no Brasil” também foi tema do episódio 5 do Escolhas no Ar, podcast do Escolhas. O conteúdo está disponível no SoundClound e no Spotify.