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Brincando com o perigo

Após a tragédia do acidente com a barragem de rejeitos de mineração da Samarco, em Mariana (Minas Gerais), que causou a morte de 19 pessoas e gerou prejuízos que podem chegar na casa da centena de bilhões de reais, segundo o que pede o Ministério Público Federal na Justiça, seria de se esperar que as consequências dos riscos ambientais das empresas finalmente ganhasse prioridade no momento em que vai se decidir sobre a realização de um investimento. Infelizmente, parece que continuamos guiados por aquele mandamento que diz que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, o que autoriza idealizar que o que pode ter acontecido com o seu vizinho não se repetirá com você.

Pesquisa da Associação Brasileira das Entidades de Mercado (Anbima), segundo divulgou o jornal Valor, em sua edição de 15/9/16 (pág. C10), mostra que apenas 40,3% das gestoras de recursos “levam em conta aspectos ambientais para decidir a alocação” de investimentos. Já 31,9% das gestoras não levam em conta “qualquer critério de sustentabilidade”, seja social, ambiental ou de governança. Os motivos alegados para esse desinteresse vão desde a falta de vontade do investidor até os gastos que seriam necessários para montar equipes para avaliar os riscos, além da notória dificuldade em medir o peso de cada dado que for coletado, o que afinal subsidiará a decisão de apoiar ou não um determinado empreendimento.

Como informa a matéria do Valor, embora “grande parte dos investidores institucionais e dos fundos de pensão sejam signatários do PRI (sigla e inglês para Princípios de Investimento Responsável), ainda é tímida a demanda” dos investimentos que se preocupam de verdade com esse tipo de avaliação.

Não bastasse tudo isso, a pesquisa da Anbima informa que os investimentos que levam em consideração critérios ambientais e sociais não chegam a 20% do montante movimentado pelas gestoras de recursos, o que demonstra o quão distante estamos da tragédia de Mariana ter servido para provocar uma mudança de atitude no modo como o risco é avaliado no Brasil.

Enquanto nos Estados Unidos investidores processam a Vale e BHP, controladoras da Samarco, alegando “falha na divulgação de informações sobre riscos ambientais”, aqui parece que o problema não é um problema até que ele venha a ser transformar em um. Ou seja, operamos sempre com o adágio que nos interessa, como é o caso do dito popular relativo ao raio. O outro ditado que recomenda colocar a barba de molho quando a do vizinho está pegando fogo, para esse caso, parece não se aplicar.