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Crise do coronavírus vai exigir envolvimento da sociedade e do governo na regulação, produção e comércio mundial de alimentos

Estudo lançado hoje mostra posicionamento do Brasil na arena internacional e os caminhos para a participação da sociedade. Os desafios e as tendências do cenário mundial para o comércio de alimentos foram debatidos por especialistas em seminário online realizado pelo Escolhas e Nexo.

A pandemia provocada pelo coro­navírus está afetando o comércio de alimentos e a segurança alimentar em todo o mundo e desafia os organismos internacionais de regulação. Especialistas reunidos no seminário “Diplomacia Alimentar. Qual o apetite do Brasil no cenário mundial? debateram as regras e instâncias de regulação do comércio de produtos agrícolas, a posição do Brasil nesses espaços – grande exportador de commodities – e as tendências internacionais nesse novo cenário imposto pela pandemia da Covid-19.

Como a sociedade pode entender o tema Diplomacia Alimentar, contribuir e influenciar as decisões sobre o comércio mundial de alimentos? Durante o evento foi lançado o estudo “Diplomacia Alimentar: qual o apetite do Brasil no cenário mundial? A regulação internacional da produção e do comércio de alimentos”, idealizado pelo Escolhas e realizado por renomados pesquisadores do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes) com objetivo de entender a complexidade da arena na qual se elaboram e implementam regras para a produção e comercialização de produtos alimentares.

Atualmente, o Brasil como o terceiro maior exportador agrícola do mundo, com 5,7% das exportações do mercado global, deverá sentir os efeitos des­sa crise, com impactos que vão perdurar por muito tempo depois que a fase mais aguda dessa pande­mia tiver sido superada, como destacado pelos especialistas durante o debate.

“O mundo vai mudar. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) chama a atenção: o mundo depois da pandemia (do coronavírus) será outro, novas tensões vão aparecer. Tensões do lado da oferta e tensões do lado da demanda (de alimentos)” , alertou o embaixador Rubens Barbosa, presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo).

Para ele, o país tem que ter uma atitude proativa. “O Brasil tem que sair dessa posição de isolacionismo, de reação e ter uma posição sobre cada uma dessa três áreas: econômica, comercial e política internacional. O que estamos fazendo aqui é um exemplo. A sociedade civil tem que começar a discutir. Temos que subir nossa voz para que haja uma discussão envolvendo em todos os níveis, envolvendo Congresso, sociedade civil, o Governo (Itamaray) para conversar sem ideologia.  Se não vamos ter uma consequência muito negativa para o país e nós vamos perder, mais uma vez, o bonde da história. O interesse nacional tem que prevalecer.”

O professor e pesquisador de Agronegócio Global do Insper, Marcos Jank, destaca que o tema Diplomacia Alimentar não podia vir em melhor hora. “Temos a história do que aconteceu. E agora um grande desafio do momento da pandemia do coronavírus ligada ao tema Diplomacia Alimentar”. Ele destaca que a mudança nos temas de saúde humana, sanidade animal e vegetal e sustentabilidade é a conscientização do risco de doenças e que agora é necessária uma discussão multilateral envolvendo todas as organizações internacionais relacionadas ao tema alimentar. Mas, o especialista em agronegócio global revela uma inquietação “Fico muito preocupado como risco de haver uma espécie de renascimento nacionalista, um certo nacionalismo alimentar. Se de um lado isso beneficia importadores protecionais por outro lado prejudica o Brasil como grande exportador que depende de fronteiras abertas”.

A economista e diretora do Cindes, Sandra Polónia Rios, uma das autoras do trabalho, destacou que o estudo tratou de dar um panorama geral sobre o contexto internacional de formulação e negociação de regras e olhou a economia política da produção de regras e a posição do Brasil. Ela concluiu que “as conclusões e recomendações do estudo não mudam muito à luz do novo cenário. O trabalho de mobilização de trazer diferentes atores para a discussão pode ajudar nessa crise, buscar um pouco mais de convergência de visões, de mobilização da sociedade para tratar deste assunto”.

Para o diretor do Escolhas, Sergio Leitão, “Aprendemos que o Brasil, nesse tema, joga sério e tem o peso da produção para ter autoridade nesta relação internacional. Em função da crise da pandemia, há indicativo que o Brasil precisa retomar o protagonismo.” Ele chama a atenção para a necessidade de mobilizar de todos os atores “Há um déficit de atenção da sociedade no Brasil em relação a importância da regulação internacional da produção e comércio de alimentos. O trabalho aponta um conjunto de recomendações para que a sociedade civil organizada e atores econômicos e próprio governo pensem e olhem como pode ser dar essa atuação do Brasil no tema da regulação produção e comércio de alimentos”.

A importância do debate, com o mundo pós pandemia, e como o Brasil vai se comportar foram os pontos destacados pela antropóloga e diretora-geral do Nexo, Paula Miraglia. “Quais são as estratégias de mobilização da sociedade civil em torno do tema Diplomacia Alimentar? Importante conseguir traduzir o universo da Diplomacia Alimentar e das arenas de negociação, que vão impactar a agenda interna do Brasil. É o grande desafio: fazer com que a sociedade civil, que o público se aproprie deste debate. Como aproximar as pessoas deste tema? O trabalho de sensibilização é fundamental.”

O seminário, transmitido ao vivo pela internet, foi realizado pelo Escolhas em parceria com o Nexo Jornal.

O estudo

O trabalho idealizado pelo Escolhas e realizado por pesquisadores do Cindes analisou as instâncias, regras, temas no funcionamento do comércio internacional de alimentos, mostra as tendências e os posturas adotada pelo Brasil e a influência dos atores privados do setor agropecuário brasileiro nesse posicionamento.

No estudo, os pesquisadores apontam que, no papel de provedor de alimentos para o mundo, o Brasil sofre pressão internacional para que o setor agroexportador adote posturas mais claras em relação a questões como mudanças climáticas e saúde humana, ade­quando suas práticas produtivas a padrões estabe­lecidos internacionalmente.

E traz algumas recomendações como a necessidade de fazer o mapeamento do setor agroexportador brasileiro e a compreensão das disposições sobre comércio e desenvolvimento sustentável no Acordo Mercosul e União Europeia.

Sumário Executivo –Diplomacia Alimentar: qual o apetite do Brasil no cenário mundial? A regulação internacional da produção e do comércio de alimentos