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O Brasil na arena internacional de produção e comércio de alimentos é tema de estudo do Escolhas

Lançado durante seminário online, o estudo sobre Diplomacia Alimentar ganha ainda mais importância no mundo pós-pandemia

 

Eduardo Geraque

Se antes da pandemia, que afeta todo o planeta, as questões de saúde humana, da sanidade animal e vegetal e da sustentabilidade, o chamado sistema “Três Ss”, já eram importantes para o agronegócio exportador, agora, em um cenário disruptivo sobre vários aspectos, elas ganham ainda mais importância.

O tema esteve no centro do seminário online “Diplomacia Alimentar. Qual o apetite do Brasil no cenário mundial? realizado pelo Escolhas e pelo jornal Nexo nesta quinta-feira (2). O evento marcou o lançamento do estudo “Diplomacia Alimentar: qual o apetite do Brasil no cenário mundial? A regulação internacional da produção e do comércio de alimentos” realizado pelo Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), que analisa as instituições internacionais que cuidam do tema.

“Temos um grande desafio neste momento por causa dessa pandemia disruptiva mundial. As organizações das cadeias produtivas vão mudar e a importâncias das questões sanitárias e de saúde humana vão ganhar ainda mais peso”, afirma Marcos Jank, professor e pesquisador de Agronegócio Global no Insper. Para o pesquisador, que já viveu na Ásia, o tema da Diplomacia Alimentar não poderia vir em melhor hora.

Apesar de o Brasil, segundo ele, “ter chance de se colocar como um país que faz as coisas direito”, o país também precisa que os mercados permaneçam abertos, mesmo com todos os controles sanitários que vão surgir. “Fico muito preocupado com o risco de haver uma espécie de renascimento nacionalista, um certo nacionalismo alimentar. Se de um lado isso beneficia importadores protecionistas, por outro prejudica o Brasil como grande exportador que depende de fronteiras abertas”, afirma Jank.

Um dos autores do trabalho, Pedro da Motta Veiga afirma que a tendência, pelo menos no curto prazo, é que o isolacionismo do Brasil prevaleça. “A tendência é o Brasil reforçar seu cacoete de se isolar do mundo e preservar suas fronteiras”, afirma o diretor do Cindes, que também assina o estudo que acaba de ser lançado. Para Veiga, ao se pensar o futuro, não se pode pensar no que estamos vivendo nestas semanas. “Algum tipo de acomodação vai ocorrer. E muita coisa do velho mundo, vamos assim dizer, vai continuar a existir. Estamos sendo pegos por falta de equipamentos hospitalares básicos, pelos mercados abertos e pelas pessoas que convivem com os animais vivos”. Também olhando para o futuro, Leane Naidin, mais uma autora do estudo e pesquisadora do Cindes afirma que uma das discussões que pode voltar é a questão da auto suficiência. “Podemos voltar a ter esse debate tanto na questão industrial quanto agrícola, principalmente quando o assunto for abastecimento. Precisamos mesmo pensar para onde vai esse nosso cacoete”, diz a pesquisadora.

Para o embaixador Rubens Barbosa, presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), outro debatedor do evento, não há dúvida de que o mundo vai ser completamente diferente, por isso, “o Brasil precisa buscar um consenso para não perder o bonde da história”. Barbosa defende que o país assuma uma posição proativa e não caia no isolacionismo. “A sociedade civil tem que discutir, como estamos fazendo aqui. Temos que subir nossa voz para que haja uma discussão envolvendo todos os níveis, o Congresso, a sociedade civil e o Governo para conversar sem ideologia. Temos que colocar o Brasil à frente de outros interesses”, diz.

Visão corroborada por Sérgio Leitão, diretor do Instituto Escolhas, idealizador do estudo. “Há um déficit de atenção da sociedade no Brasil em relação a importância da regulação internacional da produção e comércio de alimentos. O trabalho aponta um conjunto de recomendações para que a sociedade civil organizada e atores econômicos e o próprio governo pensem e olhem como pode ser essa atuação do Brasil”, afirma.

O estudo lançado nesta quinta-feira (2), feito antes da pandemia começar, mostra também como é necessário aprofundar a análise e fazer um mapeamento do setor agroexportador brasileiro, segundo os autores. Uma das questões, nesse momento, para os pesquisadores, é entender quais fatores explicam a resistência da coalizão público-privada que apoia os interesses do setor agroexportador e – em especial – dos atores privados desse setor em relação à atualização da agenda internacional do agro brasileiro.

Segundo os autores do estudo, o conflito entre a Aprosoja e a Abiove em torno da moratória da soja e a recente saída de entidades empresariais relevantes da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura são sintomas desse fenômeno, cujo entendimento – a partir de pesquisa específica sobre o tema – é relevante para a atuação dos setores interessados em influir na agenda externa do agro brasileiro, adequando-a aos novos condicionantes regulatórios internacionais.

“As conclusões e recomendações do estudo não mudam muito à luz do novo cenário. O trabalho de mobilização de trazer diferentes atores para a discussão pode ajudar nessa crise, buscar um pouco mais de convergência de visões, de mobilização da sociedade para tratar deste assunto”, afirma Sandra Polônia Rios, economista, diretora do Cindes e uma das autoras do estudo.

Para acompanhar a íntegra do debate, clique aqui.