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Entrevista do mês: Mario Sergio de Vasconcelos

Meio ambiente e sustentabilidade são aliados dos negócios

Em entrevista ao Instituto Escolhas, Mario Sergio de Vasconcelos, diretor de Sustentabilidade e Marketing da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), afirma que o setor financeiro nacional aprofundou nos últimos anos a análise do risco ambiental em suas rotinas. Além disso, tem estimulado o uso das energias renováveis ao consumidor final por meio de novas linhas de financiamento. E ainda busca inserir os impactos das mudanças climáticas em suas avaliações.

Do ponto de vista macro, a instituição espera o amadurecimento do programa Renovabio e volta a defender a implantação mais acelerada das ferramentas previstas pelo Código Florestal. No âmbito político, o diretor da Febraban afirma querer racionalidade do novo governo. A seguir, a entrevista, feita na sede da Febraban, em São Paulo.

Escolhas – Como a Febraban avalia a implantação da resolução do Banco Central criada em 2014 que obrigava os bancos a ter uma política de responsabilidade socioambiental?

Mario Sergio de Vasconcelos – A resolução 4.327 de 2014 determinou a todas instituições financeiras reguladas e fiscalizadas pelo Banco Central a obrigatoriedade de aprovar uma política de responsabilidade socioambiental. E definitivamente é algo que está incorporado por todas as instituições. Em 2019, ao completar cinco anos, as políticas, que são distintas de banco para banco por causa principalmente do tamanho deles, terão que ser avaliadas novamente. A resolução determinou este prazo de validade. De cinco em cinco anos as políticas precisam ser renovadas. Os bancos têm avançado muito nesta questão da responsabilidade socioambiental. Mas é importante dizer que a edição desta resolução não foi exatamente uma novidade, o marco zero. Mesmo antes, já havíamos desenvolvido o protocolo verde dentro do setor bancário. Os bancos já tinham compromissos muito firmes com a questão socioambiental. Existiam normativas do Banco Central específicas para o crédito rural, para a região amazônica, para o cerrado e para a cultura da cana.

Escolhas – Dentro da avaliação dos riscos climáticos feita pelos bancos, as empresas estão informando de forma satisfatória os impactos gerados pelas emissões de gases de efeito estufa e pelas mudanças climáticas em geral em seus negócios?

Mario Sergio de Vasconcelos – Podemos responder parcialmente. Com relação ao risco climático, especificamente, temos iniciativas importantes em grandes empresas e bancos que começam a tratar do tema de forma sistematizada. Um marco importante deste processo foi a criação de uma força tarefa, a pedido do G20, para avaliar os impactos das mudanças climáticas nos negócios financeiros. A ideia é prevenir estes riscos e desenvolver oportunidades de negócio nesta área. O lançamento desta iniciativa ocorreu faz um ano e meio. Neste ano, a Febraban e os bancos fizeram uma avaliação muito detalhada de como o Brasil (sistema financeiro e empresas) está neste processo de avaliação dos riscos climáticos. Esta fase foi finalizada. Mas agora temos um planejamento de implantação das recomendações, que envolve a identificação do problema, avaliação, gestão, mitigação e também a valoração do risco climático no negócio dos bancos e das empresas. É um projeto gigante, que vai levar pelo menos três anos ainda. Vai ser preciso que as grandes empresas e os vários segmentos empresariais participem da implantação deste processo. Mas, independente disto, os bancos tinham as chamadas áreas de risco socioambiental, que tratavam deste assunto não de forma tão detalhada, mas abordavam outros tipos de risco ambiental, como a questão do desmatamento, das áreas de conservação e das terras indígenas.

Não tenho dúvida em afirmar que o sistema bancário brasileiro, nos últimos anos, a partir da implantação da 4.327 intensificou e aprofundou o risco ambiental em sua análise de risco global. Esse tema vai ser cada vez mais relevante e intenso nos próximos anos. E, ao mesmo tempo, nós aproveitamos esse debate para identificar novos nichos de negócio para o setor financeiro. Nós já desenvolvemos, por exemplo, um modelo de avaliação de risco para projetos de energia solar fotovoltaica de geração distribuída, negócio ainda muito incipiente no Brasil, apesar de ser uma terra de muito sol. Nesta nova forma de avaliação de risco, é combinado o risco do tomador do empréstimo, empresa ou pessoa física, com o risco técnico do projeto. O importante é ter em mente que este processo de transformação para evitar o aquecimento global ao longo dos próximos anos tem duas faces. A do risco e a da oportunidade. Nos cabe as duas faces da moeda. Tem muito caminho a ser trilhado ainda.

Escolhas – Neste tema das energias renováveis, existem mecanismos financeiros para estimular o consumidor a utilizá-las cada vez mais?

Mario Sergio de Vasconcelos – É algo que tem crescido. Os bancos estão financiando mais. O potencial deste mercado ainda é gigantesco. Podemos ter algo na ordem dos R$ 150 bilhões em investimento nas energias solar fotovoltaica e eólica. No Nordeste, atualmente, apenas a eólica responde por 60% a 70% do fornecimento de energia. Com um custo ambiental muito baixo. Temos no Brasil menos de 1% dos telhados com placas solares gerando energia. Se você aumentar isso para 1 milhão de residências vai ter uma nova oferta de energia a um custo bastante razoável porque a implantação está mais barata devido às novas tecnologias. Tudo isso vai diminuir a pressão no sistema nacional de fornecimento de energia. É muito mais barato você colocar a fonte eólica em um estado ou uma usina solar grande e distribuir naquela região. Além de gerar empregos localmente. Os produtos vão surgindo. Há muito tempo existem linhas de crédito para a energia solar fotovoltaica. O que não estava feito, e nós fizemos durante um trabalho que durou dois anos, foi organizar esses produtos. Os critérios de seleção dos projetos, requerimentos básicos e assim por diante. Montamos os custos dos projetos e os potenciais de cada um deles. Agora, já temos bancos mergulhados nisso. Alguns deles começaram a desenvolver esteiras próprias para este tipo de negócio.

Escolhas – Como está o processo de financiamento da chamada economia verde? A avaliação da Febraban é positiva?

Mario Sergio de Vasconcelos – Há quatro anos nós criamos um processo anual para medir o quanto dos empréstimos corporativos vão para setores da chamada economia verde [redução de emissões, eficiência no uso dos recursos naturais e inclusão social]. Este volume tem crescido. Nós estamos aperfeiçoando essa metodologia. Neste ano, estamos trabalhando para que esta metodologia seja mais detalhada e específica. Além de examinar as alternativas de financiamento que possam ser implementadas. Em 2017, 15 bancos destinaram R$ 412,3 bilhões para setores econômicos que compõem a economia verde. O que representou 27,6% dos empréstimos feitos às empresas clientes destes bancos.

Escolhas – Sobre o Renovabio, este é um projeto que está consolidado segundo análise da Febraban?

Mario Sergio de Vasconcelos – Coincidentemente, apresentamos nesta semana um trabalho com uma série de sugestões feitas pelo setor financeiro e pelo mercado de capitais para a viabilizar a comercialização dos certificados de biocombustíveis no mercado financeiro. Todos entendem que é um projeto muito relevante, tanto para o Brasil quanto para a questão ambiental. Ele não proporciona uma redução absoluta de emissões, mas evita que as emissões cresçam de forma demasiada. Na verdade, mesmo com a implantação do Renovabio, ainda vai crescer o uso do petróleo. Mas o uso cresce menos do que poderia crescer. É um projeto que estimula e dá previsibilidade e segurança para o setor dos biocombustíveis, que é muito relevante para o Brasil. O setor financeiro entende que trabalhar a favor deste projeto é importante tanto para atender as necessidades dos clientes quanto do ponto de vista ambiental. Nós imaginamos que ainda vai ser preciso um processo de aprendizagem e que a questão dos certificados precisa amadurecer. É um título novo, que envolve um conceito novo, o da questão ambiental. O mercado não está muito familiarizado com isso. Por isso, é importante ver como será feita a governança deste projeto.

Escolhas – A Febraban já se pronunciou ser favorável a implantação do cadastro ambiental rural (CAR) e de todo o novo Código Florestal. O processo de implantação desta legislação e das várias ferramentas que ela propõe não está moroso demais?

Mario Sergio de Vasconcelos – Nossa posição é que já deveríamos ter implantado o cadastro ambiental rural. Não existe mais razão para postergar. Nas minhas contas, ele está com mais de 90% implementado. Existem alguns focos de áreas sem o cadastro mas que não justificam a postergação da implementação. O cadastro vai trazer mais segurança para as operações de crédito e trará também uma visão muito mais clara do nosso passivo ambiental. É uma ferramenta que também ajuda na regularização fundiária, porque você vai saber os limites das propriedades. Enfim, ele só tem vantagens. O CAR é a base para os estados desenvolverem os seus planos de regularização ambiental para, no futuro, ser desenvolvido um sistema de pagamento de serviços ambientais. Uma coisa relevante é cumprir a lei. O Brasil, ao cumprir o Código Florestal, está dando um passo gigantesco na contribuição da questão ambiental e climática. O meio ambiente e a sustentabilidade são aliados dos negócios. Os empresários rurais sabem disso. Eles querem disputar o mercado interno e externo.

Escolhas – A robusta agenda ambiental das empresas e do mercado financeiro pode ser impactada por mudanças no cenário político?

Mario Sergio de Vasconcelos – Uma coisa precisa ficar clara. O meio ambiente e a sustentabilidade são partes do desenvolvimento. Um desenvolvimento sustentável do ponto de vista financeiro, social e ambiental precisa que estas coisas caminhem juntas. Temos uma questão que não tem nada a ver com ideologia, mas com praticidade. Se hoje nós estamos colocando os produtos do agronegócio lá fora é porque somos competitivos. E isso precisa ser mantido. Para isso, os requerimentos ambientais e sociais precisam ser cumpridos. Esta é uma agenda da competitividade do país. Ela favorece a transformação da economia para algo mais resiliente, mais inclusivo, com geração de renda e emprego e que vai contribuir para as gerações futuras. Tenho convicção pessoal que qualquer governo vai enxergar isso. O novo governo vai enxergar isso também. Excessos tem que ser combatidos sejam eles de direita, de esquerda, acima ou abaixo. Não queremos excessos de nenhum lado. Queremos racionalidade. O centro da questão é saber como podemos, usando nossos recursos que são abundantes, termos competitividade e gerarmos renda, emprego e trabalho. Crescer em educação e do ponto de vista social. Isto é o principal.