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Entrevista do Mês: Mônica Sodré

Rede prepara lideranças políticas para a prática da sustentabilidade

Segundo Mônica Sodré, desafio é sair do diagnóstico para oferecer soluções  

Há sete anos, antes mesmo das manifestações políticas de junho de 2013 e de mais um impeachment presidencial na história recente do país, um grupo de pessoas de diferentes setores, interessadas em estimular e investir na formação de novas lideranças políticas, fundou a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS).

Desde então, a organização forma aproximadamente 60 políticos a cada ano, que participam de debates e eventos sobre os mais variados temas, mas que sempre têm a sustentabilidade como pano de fundo. Uma das discussões, por exemplo, em parceria com o Instituto Escolhas, é sobre a política federal de habitação. O objetivo principal é elaborar propostas para seu aperfeiçoamento, a partir dos resultados do estudo “Morar Longe: O programa Minha Casa Minha Vida e a expansão das Regiões Metropolitanas”, publicado em janeiro deste ano pelo Instituto.

Sem privilegiar partidos, e de forma totalmente gratuita, a RAPS,  que vive apenas de doações de pessoas físicas ou de entidades sem fins lucrativos, já treinou 581 políticos – alguns em exercício, outros no primeiro mandato e grande parte ainda sem mandato, mas motivados a entrar para a política institucional no curto ou médio prazos. 

Nesta entrevista ao Instituto Escolhas, Mônica Sodré, diretora executiva da RAPS, revela quais as grandes dificuldades para implementar a agenda da sustentabilidade no dia a dia da política. E como está também a percepção dos políticos brasileiros em relação a temas como a crise climática global, entre outros.  

Leia a seguir trechos da conversa.

Instituto Escolhas – Como você se interessou por essa agenda que une política e sustentabilidade?

Mônica Sodré – Tenho uma trajetória que não é exclusiva na academia, mas que teve origem nela. Formei-me em Ciências Sociais na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), emendei o mestrado na mesma universidade e me mudei para São Paulo em 2013 para o doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Entrei no programa de Relações Internacionais que, naquele momento, tinha acabado de deixar a Ciência Política da USP. Em 2013 também, junto com o doutorado, passei a fazer parte da RAPS, como líder RAPS. Naquele ano veio o convite do Marcos Vinicíus, fundador que ficou à frente da organização por seis anos. Ele me convidou naquela época para me incorporar à equipe como consultora. Fui entrando cada vez mais na rotina da organização. Em 2018, abri mão de quase tudo porque veio o convite para assumir a diretoria adjunta. Costumo brincar que 75% do trabalho é não deixar explodir as coisas. Tem 30 partidos dentro da organização.

 

Escolhas –  Quais são as principais missões da rede?      

Mônica – A RAPS nasceu com o propósito de preparar lideranças políticas para incorporar a sustentabilidade em sua atuação cotidiana. Quando a gente fala isso pode soar muito genérico. Um compromisso da organização sempre foi desmistificar o debate e tentar simplificar o tema, trazendo elementos do cotidiano. Outro compromisso nosso é ampliar a compreensão da sustentabilidade para além da área ambiental. A sustentabilidade, quase sempre, está aprisionada pela dimensão ambiental. Falar de sustentabilidade tem a ver, primeiro, com o surgimento dos direitos humanos lá em 1948. Com a ideia de que todas as pessoas que nascem são livres e iguais. Estamos com sete anos e temos muito orgulho de também ser uma organização que nasceu no momento em que boa parte do terceiro setor e da sociedade brasileira não estavam olhando para a política institucional e para a formação de lideranças. Foi antes das manifestações de junho de 2013, antes também do impeachment. Antes dessa convulsão social que temos vivido desde então.  

 

Escolhas – A organização trabalha apenas com políticos novatos?

Mônica – A organização surgiu para preparar novas lideranças e fez desde o início uma opção que também não parecia óbvia naquele momento, que era a de não trabalhar apenas com novatos. Temos desde o início dois pontos bem claros. Existe gente muito boa na política que a gente precisa identificar e trazer para dentro, porque essas pessoas têm bagagem e experiência. Eles têm uma série de conhecimentos que precisa ser partilhada com quem está chegando. O segundo ponto é que a rede não nasceu para substituir formas tradicionais de organização, como os partidos e os parlamentos. Nós nascemos para ser um espaço complementar, em que pessoas de diferentes visões, ideologias e trajetórias possam conversar de maneira segura e respeitosa sobre todos os temas relacionados ao desenvolvimento sustentável. Muita coisa ocorreu desde que surgimos. A organização cresceu em termos de números. Nós éramos pouco mais de 100 em 2013 e hoje somos 581. Digo nós porque continuo, além de diretora, líder RAPS desde 2013. Crescemos também em número de partidos. Hoje são 28 dos 33. Cresceu também o número de mandatos. Eram 5 em 2013 e hoje são 134. Temos 26 deputados federais, 6 senadores. Nós também refinamos a maneira de trabalhar. 

 

Escolhas – Portanto, a RAPS não é um grupo necessariamente de renovação da política?

Mônica – Nós ficamos aprisionados por esse rótulo da renovação da política. Ele não combina muito com a gente, porque normalmente quando você define a renovação se olha para quem está fora dos parlamentos. Quando olhamos para os dados sobre renovação, quando se fala que houve uma grande renovação no Congresso, se analisa se a pessoa estava naquele cargo na legislatura anterior. Se aquela determinada deputada não era deputada há quatro anos, isso é considerado renovação. Quando se olha para a trajetória desta deputada, entretanto, ela já foi uma secretária, uma deputada estadual, uma prefeita. Ela só virou deputada federal agora. Neste caso, eu costumo questionar um pouquinho essa percepção de que houve renovação. Se definirmos renovação como base em quem nunca esteve na política institucional antes, a chamada taxa de renovação não é tão alta assim. Existem alguns estudos feitos de outubro para cá mostrando que essa taxa de renovação é um pouco menor, quando analisada dentro deste outro contexto. Este desejo de renovação da sociedade é plenamente explicável. Nossa maior contribuição é menos sobre a renovação das pessoas e mais sobre garantir que pessoas diferentes estejam conversando. Isso tem muito valor para nós em um Brasil que tem tido tanta dificuldade em conversar. É muito simbólico para nós, quando chegamos na Assembleia Legislativa [do Estado de São Paulo] e temos cinco deputados estaduais. Conseguimos colocá-los para conversar e se juntar na frente parlamentar de saneamento, por exemplo. 

 

Escolhas – Como é feita a seleção dos integrantes da rede?

Mônica – O processo é aberto todo ano. Ele é gratuito, assim como todas as atividades que são oferecidas. Não existe convite. Todos os 581 que fazem parte da rede se inscreveram. As inscrições passam por uma comissão de seleção e todos tem o passado checado. Fazemos questão de garantir que as pessoas sejam ficha limpa. No primeiro ano, elas têm um pacote de formação que é mais intenso. São quatro encontros em São Paulo, onde se discute vários temas, como educação, agenda ambiental e segurança pública. Nas formações das turmas, existe uma preocupação de balancear as questões de gênero, racial, geográfica e partidária.     

 

Escolhas – A receptividade dos membros da rede em relação aos temas ambientais e de sustentabilidade é grande?

Mônica – A primeira dificuldade neste caso é o próprio conceito. Não existe um só. A academia tem se debatido sobre isso desde as décadas 60 e 70. Para nós, sustentabilidade tem a ver com garantir mais qualidade de vida para mais pessoas durante mais tempo sem comprometer a capacidade das gerações futuras de usufruir do que existe disponível. O primeiro desafio é tanto conceitual quanto de comunicação. A associação do tema com a dimensão ambiental é quase imediata. É difícil para as pessoas entenderem, em geral, que quando você fala de sustentabilidade, você está falando de pelo menos umas 17 coisas diferentes. Não é só mudança do clima, não é só conservação dos oceanos. Também existe o desafio, e isso nós temos refinado ao longo do caminho, que é tentar sair do diagnóstico para chegar nas soluções. O caso do programa Minha Casa Minha Vida é um bom exemplo. A gente traz a Raquel Lira, prefeita de Caruaru, que chega com uma mala de problemas. A cabeça dela está fervendo. Daí damos a informação de que o programa não é um exemplo de sustentabilidade porque ele estica a fronteira da cidade, porque faz com que as pessoas se desloquem e a emissão de carbono passar a ser alta. É super importante eles saberem disso, mas as instituições que estão trabalhando com o tema também devem ter o olhar de que a gente precisa oferecer algo no lugar. É sair de uma etapa apenas diagnóstica e ir para uma etapa do que existe disponível e de boas práticas também. 

 

Escolhas – Existe algum tipo de feedback com os participantes da RAPS que já passaram pela formação?

Mônica – Temos um acompanhamento periódico destas pessoas. Fazemos isso com alguma regularidade, antes de eles se desligarem. Estes retornos giram ao redor da dificuldade que os membros têm de encontrar outras soluções. Por vezes, os partidos não são muito receptivos a essas temáticas de sustentabilidade. Isso varia por questões ideológicas ou estatutárias. Existe uma dificuldade natural de um parlamentar que tem de duas a três bandeiras e tem que se posicionar sobre os mais diversos assuntos. Por isso, a gente tem preparado um material que orienta as discussões, além dos debates com especialistas com visões diferentes. 

Escolhas – A RAPS vai ter alguma ação específica voltada para as eleições municipais de 2020?

Mônica – O processo de seleção que dá origem a turma anual costuma ocorrer uma vez por ano. Este ano foram dois processos, porque entregamos a turma de 2019, que está em formação, e como vai ter eleição no ano que vem, nós puxamos para trás o calendário de entrada dos novos membros. Provavelmente, os selecionados serão divulgados até novembro para que a formação deles ocorra até junho. Sabemos que depois disso a vida começa a ficar completamente ensandecida para eles. Nós temos uma preocupação que tanto as campanhas quanto os mandatos sejam orientados em relação aos objetivos do desenvolvimento sustentável. Mas esse direcionamento tem que ser baseado em dados e evidências. Por isso, fizemos uma parceria com o Datapedia, que tem uma plataforma no âmbito municipal com informações sobre mortalidade e acesso ao saneamento. Esse acompanhamento da realidade municipal regular para que as campanhas sejam baseadas nestas evidências faz parte da formação que oferecemos. O nosso objetivo é preparar os candidatos para que, na comunicação com a população,  não prometam coisas sem ter uma fotografia do que é o município deles. Nossa preocupação, também, é sempre trazer perspectivas distintas sem brigar com a ciência. Se você me perguntar “Mônica, tem lugar para um negacionista do clima na RAPS hoje”, a resposta é “não”. Porque a ciência já demonstrou que a mudança climática existe e ela é provocada pela ação humana. Nós precisamos ter o setor ambiental, o financeiro e o agro juntos. Porque o agro responde por 25% do PIB e 19% da força de trabalho.    

Escolhas – O Brasil registrou secas e inundações recentes. Os políticos em geral têm a percepção de que estes eventos podem estar relacionados com as mudanças climáticas?

Mônica – Para alguns sim, mas são eventos um tanto quanto isolados na percepção de todos. O nosso papel é também mostrar as evidências. Gente, essas coisas não estão dispersas. Elas não estão acontecendo porque Deus quis. Como eu mencionei antes, além de aumentar essa percepção, precisamos dar soluções. Devemos liberar até o final do ano um banco de boas práticas. É interessante descobrir quem está fazendo o que e onde. Mostrar “olha, um prefeito da cidade tal conseguiu ampliar a iluminação pública com base em uma brecha na legislação que obrigava a concessionária de energia a investir uma parte do recurso que ela recebeu”, por exemplo.