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ENTREVISTA DO MÊS – Nicole Gobeth: “Temos que olhar para a zona rural de São Paulo e pensar políticas que protejam e viabilizem economicamente e socialmente um ambiente que é parte da cidade”

É importante que essa região se consolide, seja por meio da agricultura, do turismo rural ou da preservação ambiental, com o produtor rural atuando em todas essas frentes de atividades

Gestora do projeto Ligue os Pontos, da Prefeitura de São Paulo, a engenheira florestal Nicole Gobeth fala da importância de valorizar as atividades na zona rural da cidade, como a agricultura, o turismo rural e a preservação. O projeto, que tem como objetivo promover o desenvolvimento sustentável do território rural do município e aprimorar suas relações com o meio urbano, está promovendo uma mudança do olhar para a agricultura, de forma a trazer uma luz para um território que antes não tinha nenhum dado público. Com experiência de vinte anos em programas socioambientais no campo do desenvolvimento sustentável, inclusão de gênero e gestão de programas e projetos, Nicole vem trabalhando com sistemas produtivos e cadeias de valor na constante busca pela sua transformação.

Ela revela novidades como o primeiro edital de um projeto de pagamentos por serviços ambientais e o lançamento da plataforma Sampa Mais Rural, uma ferramenta de conexão entre a agricultura e a cidade, com dados de agricultores, produção, quem comercializa, restaurantes interessados em comprar produtos orgânicos locais e feiras. Como ela define “uma conexão que aproxima quem é do meio urbano com a zona rural, uma plataforma da cidade para a cidade”

Instituto Escolhas – Quais as vantagens e desvantagens de produzir alimentos na metrópole de São Paulo?

Nicole Gobeth – Inúmeras vantagens. Na questão ambiental, tem o fator distância, menor pegada de carbono na logística de transporte. Mas, no caso do “Ligue os Pontos” tem um caráter social muito forte também, que é de consolidar a zona rural de São Paulo, que depois de um tempo de descaracterização voltou a ser considerada como zona rural no Plano Diretor Estratégico de 2014. O programa vem para manter estes agricultores como agricultores e fortalecer a produção agrícola na região, que também é uma área produtora de água, uma das mais importante de São Paulo. A incorporação desse olhar para o rural no Plano Diretor foi uma vitória para a cidade de São Paulo. As características que existem ali precisam ser tratadas diferentemente de características urbanas, tudo o que é pensado para esse território tem que ser customizado. É um território enorme, mas com uma densidade populacional baixa se comparado ao território urbano de São Paulo. A [sub] prefeitura de Parelheiros tem o IDH mais baixo de São Paulo. Então, tem toda uma característica que é preciso olhar de perto para entender sua complexidade, para traçar ações, políticas, atividades, projetos, parcerias customizadas para essa realidade, para fortalecer e consolidar o que acontece lá.

 Escolhas: Por que o programa Ligue os Pontos existe?

Nicole: O principal motivador foi a retomada da Zona Rural dentro do Plano Diretor Estratégico. A zona rural sendo restabelecida, sendo reconhecida como zona rural, como estratégia de desenvolvimento. Há um histórico de crescimento desordenado de pressão imobiliária muito grande acontecendo há anos nessa área de abastecimento hídrico da cidade – que abastece cinco milhões de pessoas (30% da população de SP). É preciso olhar para esse território delicado, com característica hídrica muito presente, que tem uma bacia, a Capivari-Monos, ainda não contaminada – única bacia no município não contaminada – e pensar políticas que protejam e ao mesmo tempo viabilizem economicamente, socialmente um ambiente que é parte da cidade.

Quando foi feito cadastramento dos agricultores da zona Sul rural no início do projeto, com 428 produtores rurais, foi possível identificar que 80% deles possuem até dois hectares, uma produção pequena. Destes 428, nós atuamos com assistência técnica constante com 160 produtores, e estamos em uma fase de passar aqueles que fazem a agricultura tradicional para a transição agroecológica. Estamos em um trabalho intenso da conversão de agricultura. Nossa meta é chegar a 50% dos agricultores atendidos em transição agroecológica ou com certificação orgânica. Quem tem a chancela orgânica ou agroecológica tem mais acesso ao mercado.

Escolhas: Quais foram os principais resultados do Ligue os Pontos até hoje?

Nicole: O programa está desenhado em três frentes de ação. A primeira frente é o fortalecimento de agricultura, a segunda é a cadeia de valor da agricultura e do alimento como um todo e uma frente de dados e evidências. Para cada uma dessas frentes o projeto tem metas e indicadores claros. Mas o projeto é muito além das metas porque o processo que está acontecendo ali é muito importante, de mudança de cultura, de mudança de olhar para a agricultura, do convencional para o orgânico, da transição agroecológica e de como trazer o empreendedorismo para essa região. O projeto jogou uma luz em um território que antes não tinha nenhum dado público. Se conhecia muito pouco sobre o território, não tinha dados oficiais atualizados, um mapeamento em detalhes e não se conheciam quem eram os produtores agrícolas ou quem eram os empreendedores ou quais eram os negócios do território e o que estava acontecendo lá. Então, o projeto vem primeiro para levantar esses dados, que são inéditos.A gente fez um trabalho de georreferenciamento desses produtores e um mapa de uso do solo desse território identificando regiões aptas para agricultura e que precisam ser preservadas.

Agora na semana do dia 15 de agosto será lançada a plataforma Sampa Mais Rural que é uma ferramenta de conexão entre a agricultura e a cidade, com dados de agricultores visibilizando agricultores e produção de quem comercializa, visibilizando restaurantes interessados em comprar produtos orgânicos locais. Então, é um banco de dados enorme, com informações de todas as feiras de orgânicos de São Paulo – são 800 acontecendo na cidade e que estão cadastradas na nossa plataforma -, além de iniciativas de turismo, turismo rural e de políticas públicas. Quais são, onde estão e onde está acontecendo. A plataforma é aberta ao público. Essas conexões aproximam quem é do urbano com a zona rural que é tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. É uma plataforma da cidade para a cidade.

Escolhas – Quais os principais desafios que os agricultores beneficiários do programa enfrentam?

Nicole: Inúmeros desafios. Um ponto muito presente é o planejamento da produção, inserir o modus operandi de planejar para entregar, fazer a gestão do negócio. E a logística para conseguir escoar que é muito complicada, apesar de estar perto. Por exemplo, a organização da logística por tipo de produção: verduras e hortifrutis por serem extremamente perecíveis e diversos. Não tem grande volume de produção: um agricultor tem um pouquinho de um produto num dia e o outro tem um pouco de outro produto em outro dia. Estabelecer esse contato entre produtor e comprador, às vezes, se torna um desafio enorme. O produtor está muito dedicado à produção, na terra, na lida diária, na roça. Já com os produtores que são certificados orgânicos, por exemplo,  já exige uma certa organização porque para participar da certificação e da transição agroecológica é exigido alguns documentos, alguns requisitos prévios.

 

Escolhas: Como o programa está ajudando estes agricultores a obter os documentos e acessar políticas públicas que exigem essa documentação? E quais outras políticas públicas estão fomentando a agricultura local?

Nicole: O projeto tem uma comissão intersecretarial e atividades em parceria com a secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, Verde e Meio Ambiente, do Turismo e da Subprefeituras. Está sendo discutido para que estas secretarias coloquem no orçamento para o próximo ano essas atividades como recorrentes para internalizar o tema dentro da Prefeitura. O Ligue os Pontos, com o apoio da Bloomberg Philanthropies, termina em março de 2021, mas as atividades precisam continuar porque a descontinuidade para quem é atendido pelo projeto é muito prejudicial. O projeto vem apoiar os produtores na documentação para acesso a mercados. Muitos não têm a nota fiscal do produtor. Nosso plano de ação é a regularização de alguns produtores porque sem isso não vão conseguir acesso ao mercado, nem acesso a compras públicas.

Nesse desenho de políticas públicas, em parceria com outras secretarias, tem atividades muito importantes e que vão ser consolidadas agora. O primeiro PSA, o primeiro edital de um projeto de pagamentos por serviços ambientais vai ser lançado em parceria com a secretaria do Verde e Meio Ambiente. O projeto veio como um catalisador do PSA para a Prefeitura de São Paulo e uma das frentes do PSA é o fomento à transição para a agroecologia. Lançamos o Plano Municipal de Áreas Prestadoras de Serviços Ambientais, no final de 2019, que era o pré-requisito para lançamento do PSA de SP. Estamos trabalhando no decreto para o prefeito [Bruno Covas] e no primeiro edital para o município. E o projeto vai ser um piloto, fizemos um recorte para a zona sul rural da cidade, trazendo no edital uma pontuação que permita que produtores convencionais que tenham a vontade de fazer a transição para a agroecologia, possam pontuar no edital para serem também participantes do PSA. Essa é uma das conquistas do Ligue os Pontos.

Escolhas – A agricultura local, urbana e periurbana, deve ser um tema só das cidades ou existem ações estaduais e federais que podem contribuir?

Nicole-  Sim, com certeza. Foi feito um levantamento informal, há pouco tempo, que aponta que a secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado não considera São Paulo como sendo uma cidade que tem agricultura, estamos tentando mudar um pouco esse olhar para que a secretaria pense em São Paulo com sim uma cidade a ser olhada. No âmbito federal, a Embrapa tem muitas coisas direcionadas à agricultura familiar. Hoje outros atores estão entrando no território. Já temos o Senar como parceiro, oferecendo cursos e capacitações, tem o Sebrae também. Tudo vem a somar, cada um com o seu olhar. Um com um olhar mais empreendedor, outro sobre gestão de propriedade e gestão até de produtores e empreendedores, pois o território não é uma região somente agricultável. O produtor rural pode ser também um produtor receptivo de outras atividades, como as turísticas. Temos o projeto piloto feito com a secretaria de Educação para o turismo de base pedagógica, de levar alunos para um dia de atividade de campo em uma propriedade rural. O produtor abre a propriedade, apresenta uma agricultura agroecológica ou orgânica, as crianças se envolvem, fazem plantio e colheita, preparam o próprio alimento. Isso estimula as duas pontas. A questão da alimentação saudável para essas crianças, porque elas acessam produtos que elas nunca acessaram antes, colhem brócolis, couve e fazem o suco verde ou o almoço com a produtos colhidos por elas mesmas. Essa atividade proporciona também para o produtor rural um ganho além da agricultura. Em um levantamento feito no início do projeto ficou claro que o ganho do produtor rural no território, pela agricultura, é menos de mil reais por mês. Se conseguirmos dar uma escalada em atividades desse tipo, a chance de consolidação da produtor na zona rural, do pertencimento dessas famílias aquele lugar, de identificar isso como uma possibilidade de vida e de renda nesse território será muito benéfica.

Escolhas – Em uma matéria no site da prefeitura, que o título é “As mulheres que plantam saúde e futuro” você alertou sobre a necessidade de valorizar a autoestima da mulher agricultora. Qual perfil da mulher que trabalha na zona rural de São Paulo? E o que pode ser feito para valorizar o papel da mulher agricultora?

Nicole – Isso é muito nítido quando vamos fazer a pergunta do cadastro, apenas 30% se declaram como proprietária. Existe uma diversidade, algumas são agricultoras tradicionais que estão na atividade há muito tempo e tem as mulheres que buscam ser agricultoras, que são pessoas formadas em outras áreas, em engenharia, psicologia e buscaram um estilo de vida diferente. Existe essa mistura de perfis e todos são importantíssimos para o desenvolvimento local. Há uma porcentagem muito grande que não se identifica como proprietária, é sempre como coadjuvante, ajudante etc. Temos uma técnica indo a campo agora, trazendo um pouco desse olhar para a mulher, fazendo a assistência técnica para a mulher, fortalecendo o diálogo principalmente com agricultoras mais tradicionais, adequando a linguagem para o entendimento. No projeto de aceleração de negócios, junto à Ade Sampa, 5 eram mulheres como líderes de negócios e uma das proponente disse que teve muita resistência por parte do marido em propor essa mudança de conceito no negócio dela. E hoje, depois da aceleração e de ter passado por esse caminho, diz estar mais fortalecida, diz “eu consigo me impor e tomar decisões porque ele viu que foi um impulso para o nosso negócio e eu sou muito mais respeitada, a minha opinião ganhou um espaço que eu não tinha antes”. Historicamente elas são excluídas e continuam sendo. Parelheiros [zona Sul da cidade de São Paulo]tem o  maior índice de violência doméstica da cidade de São Paulo, então é um território complexo para se trabalhar.

Escolhas: O Escolhas está desenvolvendo um estudo sobre o papel da agricultura urbana na transformação do sistema alimentar da metrópole de São Paulo. Como você vê o potencial da agricultura produzida na cidade? Até que ponto essa agricultura pode contribuir para a segurança alimentar?

Nicole: Para segurança alimentar, ela é fantástica. Já tem pesquisas, como da Faculdade de Saúde Pública que tem um projeto justamente nessa linha de segurança alimentar dos agricultores. Na verdade, é uma pesquisa mais ampla que fizeram com os agricultores para saber se eles se alimentavam adequadamente, de forma saudável, e teve um resultado muito positivo de que sim, os agricultores se alimentam bem, consomem parte do que produzem e têm alimentação balanceada. Porque sabemos que tem os desertos verdes na cidade, os desertos alimentares. Por outro lado, para a produção local, não é uma meta de que tenha capacidade de alimentar a população de São Paulo, eu acredito que seja o inverso: São Paulo tem sim que se alimentar dessa produção local. Com o mapa de uso do solo ficou claro que as áreas agricultáveis – apesar de 30% de São Paulo ser zona rural não são 30% apto para a agricultura. Queremos que essa zona rural se consolide como atividade rural, seja ela agricultura, turismo rural, preservação e conservação ou outros usos que já existem, mas que seja consolidada como zona rural. Então, contribui sim para a questão alimentar da cidade, traz um olhar diferenciado para a produção e cultivo do alimento.