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Estudo analisa relação entre desmatamento e comércio brasileiro com a China

Victor na Conferência Anual da European Association of Environmental and Resource Economists (EAERE)

Victor Dornelas, bolsista do Instituto Escolhas, obteve o grau de mestre com o trabalho

Com um sorriso de alívio no rosto, minutos depois de defender o seu mestrado em inglês, por causa de um participante estrangeiro na banca, o economista Victor Simões Dornelas processava com velocidade tudo o que havia sido dito, nas duas horas anteriores, sobre o trabalho que ele desenvolveu na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo.

Na dissertação “Choque-China: impactos ambientais no Brasil”, Dornelas procurou investigar, a partir de modelos matemáticos bem fundamentados, segundo a banca examinadora, até que ponto o intenso comércio com o país asiático interferiu no desmatamento da Amazônia e do Cerrado. O acadêmico, aprovado por unanimidade, foi sabatinado por Scott Taylor, da Universidade de Calgary, no Canadá, Francisco Costa, da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, e Emanuel Ornelas, também da FGV, mas de São Paulo. Devido a distância, os integrantes do Rio e da América do Norte participaram por videoconferência da sessão de defesa da dissertação.

“Todos leram e entenderam a mensagem que eu queria passar. Vieram as críticas, claro, como eu já esperava, mas nada que tivesse me surpreendido”, afirmou o agora mestre pela USP. Dornelas também gostou da sugestão dada pelos examinadores. Uma delas, como comentou Ornelas, é utilizar o uso do solo para rodar os modelos em vez de utilizar a unidade territorial dos municípios.

O fato de a pesquisa não ter encontrado uma correlação importante entre o aumento do comércio do Brasil com a China no início deste século e o desmatamento, tanto da Amazônia quanto do Cerrado, aumentou ainda mais o desafio do pesquisador. “Fiquei surpreso com a falta de correlação, principalmente em relação ao Cerrado”, disse Dornelas.

Uma das hipóteses do trabalho relacionava a demanda da China por soja com a pressão que a cultura exerce sobre grande parte do Cerrado brasileiro. “Quando eu rodei os modelos e não apareceu efeitos significativos do ‘choque China’, que é quem mais demanda soja do Brasil, naturalmente fiquei surpreso. Isso foi bem no começo da dissertação”.

Naquele momento, relembrou Dornelas, ele parou e falou para si mesmo: “preciso entender muito bem o que está ocorrendo”. Segundo o bolsista da Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente, o modelo usado por ele não encontrou resultados positivos por causa de uma limitação na estratégia empírica usada por ele. Ao focar exclusivamente na soja, como comentou o professor Ornelas durante a arguição, um outro argumento econômico deixou de ser captado pelo modelo, como bem sabe o próprio candidato que estava defendendo o mestrado.

“O desmatamento transcende as fronteiras das cidades. Nas cidades que não tinham soja eu não consegui detectar a variação. Na Amazônia, por exemplo, não é a soja que desmata de fato. Normalmente, o processo envolve os posseiros, que primeiro desmatam, colocam um gado de baixa qualidade no local e depois pedem o acesso a posse da terra. Quando conseguem, então, eles vendem para os produtores de soja”, explicou Dornelas, já mostrando que havia assimilado muito do que os examinadores haviam falado.

O que o acadêmico e o seu orientador, professor Ariaster Chimeli, definiram como o choque chinês compreende o período que vai de 2000 a 2010. Neste intervalo, segundo os números apresentados na dissertação, as exportações do Brasil para a China saíram dos 2% e chegaram aos 15% uma década depois. Praticamente o mesmo crescimento registrado no sentido contrário. As importações da China subiram de 2% para 14% no mesmo intervalo temporal.

O fato de Dornelas ser bastante cauteloso, rendeu elogios da banca. Além disso, tanto Taylor quanto Costa afirmaram que é importante sempre ponderar os resultados obtidos para eles não serem replicados de forma equivocada mesmo no universo acadêmico.

Cuidado que o candidato também teve ao comentar um outro resultado obtido por ele, ao analisar os impactos com o comércio chinês na mortalidade infantil brasileira. Relação que, ao contrário da feita com o desmatamento, mostrou ser positiva.

“A minha conclusão, neste caso, é que não podemos determinar com certeza se é o ‘choque China’ que causa o aumento da mortalidade infantil. Pode ser que sim, mas pode ser também simplesmente um efeito das regiões que se especializaram em mineração, atividade que produz muito resíduo tóxico”, observou.

O fato de a apresentação da dissertação ter sido bem sucedida, em um inglês claro, também pode ser explicada por uma preparação que Dornelas pode fazer em junho, na Inglaterra.

Com apoio do Instituto Escolhas, ele esteve na 24ª Conferência Anual da European Association of Environmental and Resource Economists (EAERE), em Manchester apresentando seu trabalho. Essa é uma das duas reuniões científicas anuais mais importantes do mundo dentro da economia ambiental.

“A repercussão da apresentação do meu trabalho lá foi grande. Bastante gente assistindo e bons comentários. Aprendi muito também com tudo o que eu ouvi lá. Nunca tinha ido a um congresso internacional”, comentou.

Apesar do alívio, logo após a defesa, e dos cumprimentos de familiares e amigos, uma das frases que marcou para o bolsista foi a do experiente professor Chimeli. “Você pensa que é o fim. Mas é apenas o começo”, afirmou o orientador do economista logo após anunciar o veredicto da banca pela aprovação do candidato. Dornelas, agora, diz que vai começar a pensar no doutorado.

 

A Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente conta com o patrocínio do Itaú.