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Fazendas leiteiras podem aumentar sua produtividade com a utilização de tecnologia para mitigar emissões de GEE

Estudo em desenvolvimento no âmbito da Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente mostra que a produção de leite de uma fazenda modal de baixa tecnologia no interior de Minas Gerais tem potencial para aumentar sua receita por meio de semiconfinamento e melhoria na pastagem do gado, em um horizonte de 13 anos, ao mesmo tempo em que melhora seu desempenho ambiental 

As fazendas de leite ocupam o segundo lugar nas emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE) na pecuária brasileira. Com essa evidência em mãos, Gabriela Mota da Cruz, estudante de mestrado em Economia pela ESALQ/USP, pesquisadora visitante na Agroicone e bolsista da Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente, resolveu simular a implementação de medidas de mitigação em uma fazenda modal para a região de Leopoldina, no interior de Minas Gerais, que utiliza baixa tecnologia e representa a realidade de várias fazendas produtoras de leite brasileiras. O período de simulação compreendeu 13 anos, de 2017 até 2030, que é a data estabelecida no Acordo de Paris para cumprimento de metas de redução de emissões de GEE.

Por meio de sua dissertação de mestrado, ainda em desenvolvimento, “Estudo sobre a precificação de carbono na pecuária leiteira brasileira com base no Custo Marginal de Abatimento de Emissões de GEE”, Gabriela busca analisar medidas eficientes para a mitigação das emissões de carbono no setor da pecuária de leite, considerando mudanças tecnológicas do setor que podem ocorrer ao longo do período analisado. Assim, a estudante de mestrado propôs dois cenários para a fazenda mineira: Cenário A, aquele em que nenhuma tecnologia é abordada, ou seja, o cenário de linha de base; Cenário B, quando há implementação de um sistema de semiconfinamento (alimentando as vacas em lactação no  cocho e promovendo a melhoria da dieta) otimizando a capacidade produtiva dos animais. Outra melhoria simulada na propriedade modal é o manejo da pastagem. Ambas são consideradas medidas de mitigação dos GEE para a pecuária.

Utilizando a Curva Marginal de Abatimento*, a pesquisadora verificou que os custos de implementação da tecnologia são compensados pelo aumento da produtividade de leite em Leopoldina. Com a abordagem tecnológica, o número de litros de leite produzidos por animal salta de 8 para 20, ao longo do período analisado, de acordo com o estudo.

Mota apresentou parte dos resultados da sua dissertação no 20th Global Conference on Environmental Taxation, com apoio do Escolhas, que ocorreu entre os dias 25 e 28 de setembro de 2019 na cidade de Limassol, no Chipre, país localizado na Europa Oriental. O tema principal da edição deste ano foram políticas econômicas para o desenvolvimento de uma economia de baixo carbono. 

Confira a entrevista que a estudante de economia concedeu ao Instituto Escolhas sobre seu trabalho:

Instituto Escolhas: Qual é a principal contribuição científica que o trabalho oferece?

Gabriela: Nosso grande ganho nesse trabalho é trazer uma análise microeconômica que ressalta o quão heterogêneo são os sistemas produtivos na pecuária. Na minha dissertação, analisamos três fazendas modais. Selecionamos Leopoldina (MG), representando uma fazenda de baixa tecnologia; Caçu (GO), de média tecnologia; e Castro (PR), de alta tecnologia. Tanto em Leopoldina, como em Caçu, demos dois choques. Ou seja, melhoramos a alimentação das vacas, por meio do semiconfinamento, e a pastagem. Na medida que menos vacas vão conseguir produzir mais leite, serão necessários menos animais para a mesma produção. No caso de Leopoldina, que apresentei no Congresso, descobri que o aumento da produtividade das vacas compensa os custos de implementação da tecnologia no período de 13 anos. Isto se deve principalmente pelo aumento de produtividades das vacas em lactação, que passaram a produzir a média de 8 litros de leite diário para 20 litros quando implementamos a melhora de dieta. Acho que demos um subsídio importante para discussão de como reduzir as emissões de gases do efeito estufa na pecuária leiteira. Para simulação da evolução dos indicadores zootécnicos contamos com o apoio do especialista de Custo de Produção do CEPEA (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada/USP), Caio Monteiro.

Escolhas: Quais foram suas motivações para a escolha destas fazendas como objeto de estudo? 

Gabriela: São cerca de 45 painéis que mostram a situação das fazendas brasileiras, mas como analisá-los em sua totalidade levaria muito tempo, não foi possível utilizar todos os painéis. Então, pensamos em representar um pouco a diversidade tecnológica  do setor brasileiro através da seleção de três sistemas representativos dessa diversidade, ou seja, utilizando níveis de tecnologia baixa, média e alta. 

Escolhas: Quando e por qual razão você passou a se preocupar com a mitigação das emissões de carbono geradas pela exploração agrícola de uma fazenda leiteira?

Gabriela: Tive aula com a professora de microeconomia da ESALQ/USP, Sílvia Helena Galvão de Miranda, e dentro dessas aulas ela comentou sobre o conceito de Custo Marginal de Abatimento. Fui trabalhar com essa professora no CEPEA, em um projeto de precificação de bens públicos e acabamos resolvendo mudar para o tema da precificação de carbono na agropecuária dada a relevância dessa temática para o nosso país, tanto em termos de emissão (já que a produção de leite é a segunda maior fonte de emissão da agropecuária brasileira) quanto em termos da importância do setor agropecuário para o país. 

Escolhas: Como os cenários descritos pelo estudo podem influenciar outras iniciativas nesse sentido? Quais são suas expectativas com este trabalho?

Gabriela: A gente pretende continuar avançando nos estudos com mais painéis, para se ter uma ideia mais detalhada das emissões das fazendas brasileiras. Entender as oscilações de acordo com o nível tecnológico, dos diferentes estados e biomas em que as fazendas estão presentes. Pretendemos fazer isso primeiro para leite e futuramente pensando no gado de corte.  

Escolhas: Qual é a importância de atribuir um imposto para as emissões de carbono na pecuária? Tal tributação é viável no Brasil?

Gabriela: Já tínhamos uma ideia de discutir medidas possíveis de precificação  para pecuária, analisando sua viabilidade e desafios. Uma das propostas que já foi mencionada é em relação à pecuária de corte, via estabelecimento de um imposto, possivelmente no momento de abate, que visaria incentivar a diminuição da idade de abate, e com isso diminuir as emissões dos gases de efeito estufa ao longo do processo de produção pecuária. Esta é uma proposta muito complexa e não se pode discutir a implementação de um imposto sem se realizar mais estudos para subsidiar tal discussão. Além disso, a realidade do gado leiteiro é bem diferente do gado de corte. Uma vaca leiteira  produtiva é aquela que vive o maior tempo possível produzindo uma quantidade de leite economicamente interessante. Quanto a este aspecto, fizemos uma simulação preliminar de um imposto pigouviano para pecuária leiteira**. A ideia desse imposto é taxar as externalidades geradas pela atividade produtiva. As externalidades consideradas no nosso trabalho são a emissão dos GEE através de fermentação entérica e manejo de dejetos. Na simulação para a propriedade de baixa tecnologia de Leopoldina, a aplicação do imposto, aos preços de mercado do leite no período considerado, teria impacto financeiro suficiente para tirar essa fazenda do mercado (e outras do mesmo perfil  tecnológico). Portanto, essa política tem potencial de impactos socioeconômicos muito prejudiciais para os produtores de leite de baixa tecnologia. No mesmo estudo mostramos também medidas de mitigação que podem ter ganhos de produtividade. Estes resultados mostram a necessidade de mais estudos para subsidiar a implementação de políticas para estímulo de medidas de mitigação na agropecuária brasileira.

Escolhas: Como você analisa o papel do Brasil nas Conferências do Clima nas últimas três décadas?

Gabriela: Como resumo, o Brasil sempre foi um ator importante nessas discussões. Sempre apresentou estudos relevantes nessa área. A gente tem instituições sérias que trabalham com isso: Pangea, Agroicone…. Mas, em geral, o país não agiu tanto.

Escolhas: Qual é a importância da apresentação deste trabalho no 20th Global Conference on Environmental Taxation?

Gabriela: No caso deste estudo, foi interessante mostrar um pouco da realidade brasileira. Grande parte da Europa estava apresentando estudos na área de taxação de carbono na Conferência. A discussão é bem avançada por lá, entretanto, a realidade da pecuária brasileira é bem complexa e com muitos produtores com remuneração muito baixa, o que torna necessário mais estudos para subsidiar a tomada de decisão da política a ser adotada para mitigar Gases Efeito Estufa no setor. E, como tinha dito anteriormente, no Brasil ainda é preciso discutir o estímulo a medidas de mitigação sem custo ou de baixo custo que podem estimular o setor privado a fazer os ajustes para mitigação. Muitas fazendas de leite brasileiras de baixa tecnologia podem não sobreviver se for estabelecido um imposto ambiental nas condições em que foram analisadas neste estudo. Isto representaria grande parcela das fazendas do setor leiteiro. Então acho que é importante mostrar o contexto brasileiro na pecuária e mostrar o potencial de pesquisas a serem conduzidas a fim de subsidiar as futuras políticas públicas nesse sentido. Sobre a ida ao congresso, foi muito rico entrar em contato com o que está sendo estudado lá fora, entrar em contato com a área de biocombustíveis, com outros pesquisadores… Um estudo como o nosso é bem inédito nessa área, então foi bem importante apresentar a realidade brasileira, o que a gente está produzindo, além de ter uma oportunidade de disseminar o estudo nas discussões internacionais.

* A ferramenta “Custo Marginal de Abatimento” de gases de efeito estufa é um instrumento analítico que procura identificar o custo da redução de determinada quantidade de Gases do Efeito Estufa (GEE) oriunda de uma medida de mitigação.

** Uma taxa pigouviana (também conhecida por imposto pigouviano) é um tributo aplicado a uma atividade de mercado que esteja gerando negativas externalidades (custos a alguém que não seja a pessoa a quem o tributo é imposto). No exemplo da pecuária leiteira, o proprietário da fazenda pagaria o imposto pelas emissões do GEE.

Sobre a Cátedra

A Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente conta com o patrocínio do Itaú. A iniciativa contempla o Programa de Bolsas Cátedra Escolhas, que oferece bolsas de mestrado e doutorado para estudantes de pós-graduação interessados em estudar Economia em sua interface com o Meio Ambiente. Além de Gabriela, nas três edições anteriores, 16 estudantes foram apoiados. Conheça os bolsistas e os trabalhos desenvolvidos por eles no canal do Instituto Escolhas do Youtube. 

É estudante de pós-graduação em Economia e tem interesse de estudar o tema em sua interface com o meio ambiente? As inscrições para o nosso Programa de Bolsas estão abertas! Veja mais informações do processo seletivo no link.