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Entrevista do Mês: Paulo Bressiani

Garagem vira fazenda urbana em São Paulo

Um galpão despretensioso em uma rua de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, esconde um projeto diferente de produção de verduras. Em um ambiente controlado, apenas água e nutrientes solúveis chegam até as raízes. As folhas são mantidas secas e limpas. Para, 35 dias depois, aproximadamente, a colheita ser feita. Em um primeiro momento, alfaces e alguns tipos de temperos, como o manjericão, estão entre os principais alvos do produtor Paulo Bressiani, 29. 

O engenheiro ambiental desenvolve a ideia da Fazenda Cubo desde 2018, mas a inspiração veio de 2013, quando leu as primeiras notícias sobre a empresa AeroFarms, nos Estados Unidos. 

Agora, como o empreendedor explica nesta entrevista ao Instituto Escolhas, a ideia é produzir por volta de 10 mil pés de alface ao mês, em um espaço de 90 metros quadrados com prateleiras que podem receber seis andares de caixas com mudas e plantas em crescimento. Em vez da luz do sol, como ocorre no campo ou nas estufas, a produção é toda desenvolvida a partir de lâmpadas especiais de LED. 

As plantas crescem sem nenhum tipo de agrotóxico. O desperdício também é mínimo, segundo Bressiani, que explica que a produção será vendida principalmente para restaurantes do bairro e entregue quase sempre de bicicleta. E o preço é atraente, na faixa do custo das hortaliças orgânicas vendidas nos supermercados paulistanos.

Leia a seguir trechos da conversa, na qual Bressiani explica também os gargalos que existem para o setor se expandir.

Escolhas – Por que o interesse por esse tipo de empreendimento? Você tem alguma relação com o cultivo no campo e, por isso, resolveu agora trazer estas fazendas indoors de alta tecnologia para uma grande cidade? 

Bressiani – Tenho uma trajetória meio inusitada. Estou trabalhando com o cultivo de hortaliças, mas eu não vim desta área. Estudei engenharia ambiental na Escola Politécnica da USP. Depois de me formar, em 2013, passei a trabalhar em uma consultoria de engenharia especializada em recursos hídricos. Trabalhava com projetos de saneamento, com modelagem da qualidade da água e drenagem urbana. Apesar de sempre querer empreender, minha ideia não era me formar e sair empreendendo. Minha meta era trabalhar um pouco para conseguir adquirir experiência e conhecimento. Depois da consultoria entrei no mercado financeiro em um fundo especializado em comprar novas empresas de infraestrutura. Elas eram desenvolvidas para depois serem vendidas. Alguns da equipe, como era o meu caso, ficavam dentro da área de novos negócios das empresas que recebiam o investimento. Eu trabalhei dentro de uma empresa de energia temporária e depois de data center. Em 2017, não estava mais tão entusiasmado com o trabalho e resolvi partir para o meu próprio negócio. Desde 2013, quando vi as primeiras notícias sobre fazendas indoor passei a ficar encantado com o tema. Naquela época havia lido uma notícia sobre uma fazenda grande em Nova York, da empresa AeroFarms. Passei então a seguir o assunto mais de perto. 

Escolhas – Na sua família, então, não existe aquela tradição de trabalho no universo rural, do setor agrícola?     

Bressiani – Sempre morei em São Paulo, mas minha família tinha um sítio onde passava quase todos os finais de semana e também as minhas férias. Sempre tive um contato muito grande com as plantas e gosto muito dessa relação. Também fiz engenharia e sempre gostei da parte ambiental. Eu queria trabalhar com algo que necessariamente tivesse um impacto ambiental e social. Nunca tive vontade de empreender, por exemplo, na área tecnológica, criar um aplicativo e pronto. Eu sempre imaginei um negócio que trouxesse uma contribuição socioambiental importante. Quando vi que a fazenda indoor juntava meu interesse por plantas, a parte tecnológica e um negócio viável, os meus olhos brilharam. Em 2017, comecei a desenvolver a ideia. Fiz um curso de hidroponia para entender mais sobre o assunto, comecei a conversar com os donos de restaurante e percebi que era um bom momento para começar. Desenvolvi a ideia durante todo o ano de 2018 e fui novamente para Nova York fazer visitas técnicas. Estive ainda em fazendas na Bélgica, na Suécia e na França para desenvolver o meu modelo de negócio.

Escolhas – Qual é a ideia que sustenta a Fazenda Cubo? O objetivo é apenas ter um bom retorno econômico?

Bressiani – A ideia central do projeto é aproximar o plantar do comer. É fazer com que a produção dos alimentos fique perto do consumo deles. A questão não é apenas melhorar a logística da entrega dos produtos, mas é reaproximar as pessoas do que elas estão comendo. Hoje, elas têm dificuldades de saber de onde vem o que elas consomem, mas esse é um interesse que vem crescendo. Cada vez mais se vê nos supermercados, nos restaurantes, a denominação de origem dos produtos. Hoje, em uma cidade como São Paulo, vejo duas formas de fazer essa aproximação. Existem as fazendas indoors, que apresentam muita flexibilidade, que podem ser montadas em qualquer armazém, como o nosso. Outro caminho são as estufas nos telhados. O problema aqui, muitas vezes, é encontrar coberturas para terem este uso. A diferença entre uma opção e outra é o tipo de luz usado. Enquanto nós usamos LEDs, nas estufas se usa a própria luz do sol.

Escolhas – As fazendas indoors usam a técnica da aeroponia. Qual a diferença dela para a hidroponia? Em termos gerais, quais são as principais características do modelo de produção que vai começar a funcionar agora? Ele é, por exemplo, livre de agrotóxicos?

Bressiani – Nosso sistema usa zero de agrotóxico. O ambiente é totalmente controlado. Usamos porta duplas e filtros de ar para que as plantas possam crescer sem nenhum pesticida. Na aeroponia, técnica que nós usamos aqui, as plantas ficam suspensas e as raízes são nebulizadas com uma solução nutritiva. O grande diferencial desta técnica é que como as raízes são apenas nebulizadas e elas não ficam encharcadas ocorre uma maior oxigenação das mesmas. O que deixa elas menos propensas a ter alguma doença ou contaminação. A maior oxigenação das plantas também acelera o crescimento. Na aeroponia, a água está presente em pequenas gotículas. As raízes são borrifadas por uma espécie de névoa. Ao contrário da hidroponia onde as raízes são regadas diretamente, ou elas ficam submersas na água, onde então é usado um sistema de calha que irriga as plantas de tempos em tempos. Nossa água, antes de ser aplicada nas plantas, passa por dois filtros de material particulado, por um filtro de carvão ativado e ainda por mais um filtro ultravioleta. Todo eventual microorganismo é eliminado sem adição de nenhum produto químico. O sistema está todo consolidado. O grande desafio é montar o quebra-cabeça dos fornecedores para montar tudo com tecnologia 100% nacional. Apenas os LEDs ainda não conseguimos comprar aqui, por causa do custo e da qualidade, mas, em breve, eles deverão estar disponíveis.

Escolhas – Qual é o foco do projeto? Qual tipo de cliente ele pretende atingir?

Bressiani – Em um primeiro momento, nossa venda é focada nos restaurantes. Por dois motivos principais. Os restaurantes estão sempre inovando naquilo que eles consomem. A percepção de um chefe sobre o diferencial de um produto que nós temos aqui é mais imediata na comparação com o consumidor final. Outro aspecto é que para os restaurantes, o volume de venda tende a ser maior. Mas a nossa ideia é termos também uma lojinha na frente da fazenda para vender o que acabou de ser colhido. A ideia inicial é abastecermos restaurantes apenas em um raio de 1 km de onde nós estamos aqui em Pinheiros, bairro conhecido pela grande concentração de restaurantes de alto padrão. Estamos em uma posição estratégica, inclusive, para que a maioria das entregas sejam feitas de bicicleta ou a pé. Pouca coisa será entregue de carro. E nada com caminhão. 

Escolhas – O modelo desta fazendas urbanas indoors surgiu nos Estados Unidos ou na Europa? Como é a realidade destas iniciativas em outro países?

Bressiani – Não sei se existe um registro de onde começou. Mas o grande diferencial dessa iniciativa é a questão da verticalização. Aqui nós temos seis andares de produção. A primeira em grande escala foi feita em Nova York, da empresa AeroFarms. Ela só produz indoor com aeroponia, similar ao nosso modelo aqui. Mas lá é enorme, parece um hangar de avião. Atualmente, apenas em Nova York você encontra mais de dez empresas. No Japão o setor está bem desenvolvido também. Assim como nos Emirados Árabes, principalmente por causa do clima deles. Na Europa também começou pela questão climática. Na medida em que os mercados foram se desenvolvendo, e as lâmpadas de LEDs ficaram cada vez mais acessíveis e eficientes, os espaços foram se abrindo e os projetos ficaram viáveis do ponto de vista econômico, mesmo em lugares como o Brasil, onde a barreira do clima é menor. Agora, nos Estados Unidos, além de alfaces e temperos em geral, começaram também a produzir morango. Mas o foco ainda são as espécies de folhosas. Os brotos usados normalmente para decoração dos pratos, mas que também são muito nutritivos, estão sendo bastante cultivados nos Estados Unidos.

Escolhas – Em termos de regulação, quais são os gargalos que precisam ser enfrentados neste setor?     

Bressiani – A questão da certificação orgânica é um dos pontos que precisa evoluir. No Brasil, hoje, a hidroponia não pode ser considerada orgânica porque você não tem o solo. Como a base do cultivo orgânico é você preservar o solo, sem solo a sua técnica não pode ser considerada orgânica. Nos Estados Unidos, a legislação está mudando para você ter produções indoor tanto hidropônicas quanto aeropônicas que possam ser consideradas orgânicas. É uma tendência que imagino que o Brasil deveria seguir. Seria interessante porque estimularia a produção. Não deixa de ser uma barreira você ter que explicar ao seu cliente porque o seu método é sustentável apesar de não ser orgânico. É importante pensarmos em uma espécie de certificado de produção indoor que respeite vários indicadores. A Universidade de Columbia já tem feito pesquisas para criar uma certificação de fazendas indoors com base em itens de qualidade e sustentabilidade da produção. É um processo que está apenas dando os primeiros passos. Outro gargalo, que não é apenas brasileiro, é a questão da produção de sementes. Todo produtor orgânico precisa enfrentar o desafio de conseguir sementes de variedades de hortaliças sem tratamento químico. A maioria das sementes disponíveis no mercado passaram por algum tipo de tratamento com produtos químicos antes de serem comercializadas. O número de produtores que vendem sementes sem química é bem limitado. Nos Estados Unidos este gargalo já é um pouco menor. Parece loucura, mas comprei lá uma semente de uma flor comestível da Amazônia que nunca encontrei aqui.  

Escolhas – Em termos de futuro, qual é o caminho que esse projeto pode trilhar? Existe potencial no Brasil para pensar em uma grande expansão? 

Bressiani – De forma factível, existem dois modelos para a expansão do negócio. Um é replicar essa pequena fazenda de Pinheiros em outro lugares da cidade. Outro caminho seria adquirir um galpão maior, em uma área nos arredores do centro urbano, para termos uma produção de maior escala. Teria até um terceiro caminho, por exemplo, que seria o de criar mini fazendas nos fundos dos restaurantes. Já temos até algumas conversas com restaurantes sobre esse projeto.