fbpx

Intensificação tecnológica pode reduzir emissões e aumentar renda das fazendas de leite do país, revela bolsista da Cátedra Escolhas

Resultados do estudo de caso mostram que as emissões de carbono podem cair em até 50% por litro de leite e a produção pode aumentar de 8 litros para 20 litros de leite por animal em lactação.

Por Eduardo Geraque

A modernização tecnológica de grande parte das fazendas produtoras de leite do país tende a gerar um processo de ganho tanto econômico quanto ambiental, conforme mostra a dissertação de mestrado “Emissões de GEE na pecuária de leite brasileira: custo marginal de abatimento para diferentes sistemas de produção e implicações políticas”. O trabalho, apresentado pela bolsista da Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente e agora mestre em Economia Aplicada Gabriela Mota da Cruz, foi aprovado sexta-feira (5/6) na ESALQ/USP de Piracicaba.  O programa de bolsistas da Cátedra Escolhas, que conta com o apoio, entre outros, do Itaú.

Na fazenda típica de Leopoldina, município de Minas Gerais, as emissões de carbono podem cair em até 50% por litro de leite, enquanto a produção pode aumentar de 8 litros de leite por animal em lactação para 20 litros de leite, quando se analisa a melhoria da alimentação dos bovinos, considerada na literatura como uma das medidas de mitigação dos Gases de Efeito Estufa (GEE) na pecuária. São indicadores que mostram, de acordo com a pesquisa, que os custos em inovação tecnológica, para uma produção mais eficiente tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico, se pagam quando analisados por litro de leite produzido e em um horizonte de tempo relativamente rápido. Nessa região, a propriedade típica (modal) de leite ainda reflete a prevalência de um sistema produtivo de baixo nível tecnológico.

Este foi um dos estudos de caso apresentados na dissertação organizada na forma de artigos. O primeiro foi focado na apresentação geral do tema das emissões na pecuária bovina leiteira. Já no segundo, buscando representar um pouco da diversidade geográfica e tecnológica das fazendas de pecuária leiteira do Brasil, as simulações de melhorias tecnológicas foram feitas com base em dados de alguns dos painéis de custos de produção do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e a Confederação da Agricultura e Pecuária no Brasil (CNA), conhecido como Painel Cepea-CNA. Estes painéis contemplam informações detalhadas sobre os sistemas de produção, identificados como os modais na região de seu levantamento, caracterizando as chamadas propriedades típicas. Os dados do Painel Cepea-CNA englobam o tamanho do rebanho, tipo de tecnologia usada na produção (alimentação, genética, controle sanitário) e as áreas das propriedades, além de indicadores zootécnicos e econômico-financeiros das fazendas.

A pesquisadora usou dados de duas fazendas típicas do País, representativas dos sistemas de produção mais frequentes nas regiões onde foram levantados pelo Cepea/CNA, para simular, ao longo de um intervalo de tempo, o chamado custo marginal de abatimento. Este é o custo da redução de determinada quantidade de gases efeito estufa gerada pela adoção de uma medida de mitigação.  Esta ferramenta permite analisar resultados práticos da implementação de um conjunto de medidas voltadas para a melhoria dos índices zootécnicos e econômicos das propriedades de leite e que contribuem também para a redução relativa das emissões de gases de efeito estufa.

Pelas simulações que a economista fez, em um intervalo de 13 anos – entre 2018 e 2030-, o investimento em avanços tecnológicos, visando otimizar principalmente a dieta dos animais e estimular uma produção mais intensiva, provocaria o aumento da produção ao mesmo tempo que reduziria as emissões de GEE da propriedade, se for considerada a relação de toneladas de carbono por litro de leite produzido.

Nos dois estudos de caso, para a propriedade típica de Leopoldina (MG), caracterizada por uma baixa tecnologia, e para a propriedade típica de Caçu (GO), considerada com um nível tecnológico um pouco melhor (médio), as simulações mostraram que a melhoria dos índices zootécnicos propiciou melhoria nos resultados econômicos e redução de emissões relativas, ou seja, por litro de leite produzido. “É neste artigo que vemos que a modernização tecnológica pode contribuir para redução das emissões e para a melhora dos indicadores financeiros de fazendas que representam grande parte da realidade da produção de leite no Brasil”, afirma Gabriela.

Imposto sobre o carbono

Os resultados obtidos nas simulações com valores hipotéticos para a precificação do carbono, mostram que as propriedades com diferentes níveis tecnológicos, e, portanto, desempenhos zootécnicos e econômicos distintos, podem sofrer impactos também distintos com a imposição de uma política de tributação sobre emissões de carbono. Apontaram ainda que, nos níveis de alíquotas testadas, um imposto sobre o carbono poderia inviabilizar financeiramente as propriedades de baixa e média tecnologia analisadas.

Os cenários de antes e depois da implementação das duas alíquotas mais baixas de um hipotético imposto ambiental revelam que a heterogeneidade do setor, bem típico do Brasil, tem uma importância fundamental em qualquer discussão sobre políticas públicas ambientais.

A simulação do impacto de um hipotético imposto sobre carbono à realidade econômica dos três conjuntos de dados foi o tema abordado no terceiro artigo do trabalho, no qual a economista usou os mesmos modelos de Leopoldina e Caçu, mas acrescentou um terceiro, o da região de Castro (PR), com nível tecnológico considerado elevado. “O foco deste artigo específico é entender o impacto de um imposto ambiental nas fazendas, com risco de inviabilizar fazendas de baixa e média tecnologia que representam a realidade de grande parte da produção de leite no Brasil”, diz a economista.

Segundo as conclusões, “nível tecnológico, resultados financeiros e de produtividade dos diferentes sistemas de produção leiteira devem ser considerados nas análises de impactos potenciais da política ambiental, com o objetivo de mitigar a poluição atmosférica…” e estes impactos serão proporcionais à magnitude do imposto sobre carbono, no modelo em que este foi simulado incidindo como uma alíquota sobre animal.

De acordo com Gabriela, que em seu mestrado foi orientada pela professora Sílvia Helena Galvão de Miranda, os resultados da pesquisa mostram que a ferramenta política de se precificar o carbono pode vir a ter uma natureza extrafiscal. Isso porque, em fazendas onde a produtividade for alta, medida em produção leiteira de vacas lactantes, embora seja maior o imposto sobre carbono a ser pago pelo produtor, a tendência é de que o valor da alíquota a ser recolhida por litro de leite produzido seja menor. “Esta evidência mostra que produtores de leite mais eficientes poderão pagar menos impostos ambientais por litro de leite, enquanto produtores com baixa produtividade podem ter a viabilidade econômica comprometida”.

Sobre a Cátedra

A Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente conta com o patrocínio do Itaú. A iniciativa contempla o Programa de Bolsas Cátedra Escolhas, que oferece bolsas de mestrado e doutorado para estudantes de pós-graduação interessados em estudar Economia em sua interface com o Meio Ambiente. Conheça os bolsistas e os trabalhos desenvolvidos por eles nas redes sociais do Instituto Escolhas.

Desde 2016, a Cátedra já beneficiou 23 bolsistas de diversos estados do Brasil, sendo que doze já defenderam a tese.