fbpx

O lugar das renováveis

O jornal Valor, em sua edição de 15/9, traz um interessante artigo intitulado “Quem tem lugar para energias renováveis” (pág. A11), de Adair Turner, que discute quais países poderão dispor de espaço para recepcionar fontes como eólica e solar. No artigo, diz que “não há dúvidas de que parques solares e eólicos exigem grandes espaços de terra. Mas, em escala mundial, há bastante espaço”.

Segundo o autor, o espaço de terra para energia solar suprir toda a necessidade do mundo é de no máximo 1% da sua extensão. Se é isso, então qual é o problema? É que essa necessidade varia de país para país, podendo criar problemas decorrentes da disputa entre a destinação, por exemplo, para gerar energia ou o emprego em atividades agrícolas.

A Índia é um exemplo interessante. Com uma das maiores populações do mundo e uma das mais altas taxas de habitante por metro quadrado, chegando a 22 vezes a média mundial, o país “teria de destinar 4% de suas terras a parques solares para satisfazer todas as suas necessidades energéticas”. Em Bangladesh, essa necessidade sobe para 10%. Apenas para registrar, a Índia tem 441 habitantes por km2, Bangladesh 1, 2 mil, enquanto os EUA têm 35.

Como afirma Adair, pode ser mais fácil realizar a transição para uma economia menos dependente de fontes fósseis em países desenvolvidos, que poderão se apropriar “mais facilmente” dos benefícios que serão propiciados, o que exigirá “muitas outras tecnologias e políticas bem concebidas, nacionais e internacionais, para permitir que os países menos vocacionados construam economias de baixo carbono”.

O texto serve para refletir que, mesmo no Brasil não estamos distante de verificar tensões na disseminação das novas energias renováveis, como é o caso dos conflitos que já se verificam no Nordeste, em razão da expansão dos parques eólicos. Isso acontece, em especial na região litorânea, que, para muitos, a julgar pela escala dos projetos que estão previstos para serem implantados, podem repetir, ainda que em um grau menor, as disputas que acontecem quando da construção de usinas hidrelétricas na Amazônia.

Ou seja, o imperativo de contarmos com uma economia descarbonizada, ancorada nas fontes renováveis, não pode dispensar que isso se faça em uma arquitetura democrática, que evite o surgimento de conflitos que oponham de forma irremediável o respeito aos direitos das populações que possam ser impactadas pelos efeitos dos empreendimentos de geração de energia e o desenvolvimento do país.