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O trabalho lançado nesta terça (19/05) apresenta números, dados e pontos de vista de especialistas e de partes interessadas que possam contribuir para que a sociedade brasileira decidir se Angra 3 é a melhor opção.

“Se termina e coloca para funcionar [a usina de Angra 3], terá um custo de R$ 12 bilhões a mais do que se escolher outra fonte, que é a solar. Agora, se somamos isso ao fato de que vai ter energia sobrando, porque o tombo da nossa economia será feio, a pergunta que fica é por que o país tem que colocar esse custo no orçamento do setor elétrico? Questiona Sergio Leitão em entrevista ao jornalista Guilherme Serodio.

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Energia gerada por Angra 3 poderá ser 218% mais cara que alternativa a gás, conclui estudo do Instituto Escolhas

Em entrevista à epbr, diretor executivo do instituto, Sergio Leitão, questiona se investimento em nuclear e em infraestrutura para gás ainda fazem sentido no Brasil

O diretor executivo do Instituto Escolhas, Sergio Leitão, defende que o investimento na conclusão das obras de Angra 3, que inclui recursos estatais, perde o sentido diante de opções mais baratas e limpas. A organização está lançando um novo estudo (.pdf) que coloca em xeque os benefícios do investimento total estimado em R$ 25 bilhões para concluir a usina nuclear projetada para uma potência de 1,405 MW, em construção em Angra dos Reis (RJ), desde o início da década de 1980.

Com informações da PSR, o documento conclui que a energia de Angra 3 seria mais cara que 12 alternativas de geração de energia elétrica analisadas. A usina nuclear teria um custo final de R$ 528 por MWh, maior até do que térmicas a gás natural flexíveis a ciclo aberto, menos eficientes. Chega a ser 144% mais cara que uma térmica a gás natural com ciclo combinado (mais eficiente), gerando a R$ 216 por MWh, e 218% mais que uma unidade a , com custo calculado em R$ 166 por MWh. Veja resumo no quadro

A energia de Angra 3 tem um custo projetado pelo governo de R$ 480 por MWh, considerando a demanda total de investimentos da ordem de R$ 25 bilhões e a possibilidade de entrada em operação em 2026 – planejamento que pode ser afetado pela crise de saúde pública e econômica em decorrência da pandemia de covid-19. Dados citados pelo Instituto Escolhas, com base no Tribunal de Contas da União (TCU), Ministério de Minas e Energia (MME), Aneel e Eletronuclear.

“Se termina e coloca para funcionar [a usina de Angra 3], terá um custo de R$ 12 bilhões a mais do que se escolher outra fonte, que é a solar. Agora, se somamos isso ao fato de que vai ter energia sobrando, porque o tombo da nossa economia será feio, a pergunta que fica é por que o país tem que colocar esse custo no orçamento do setor elétrico?”, questiona Sergio Leitão.

Trecho do estudo Angra 3: vale quanto custa?, elaborado pelo Instituto Escolhas com consultoria da PSR  

A Eletronulcear estima que serão necessários R$ 14,5 bilhões para concluir Angra 3 e tem uma dívida de R$ 19 bilhões relativa à construção da usina, informou nesta segunda (18) o presidente da estatal, Leonam Guimarães, durante evento virtual promovido pela Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan). Informações do Valor Econômico.

O cronograma atual prevê a retomada das obras em outubro de 2021, mas o modelo de negócio elaborado pelo BNDES para atrair um sócio internacional ainda precisa ser aprovado pelo Conselho do Programa de Parcerias de Investimentos (CPPI). Etapa era prevista para março, mas foi adiada devido à pandemia.

“O que se busca atualmente é avançar nas obras civis e montagem eletromecânica com empresas contratadas pela Eletronuclear e mantendo os fornecimentos considerados críticos, de forma que a gente faça esse trabalho ainda este ano, de 2020, para poder efetivamente assinar as obras civis e montagem eletromecânica no início de 2021, para iniciar efetivamente a concretagem e montagem em outubro de 2021, respeitando a entrada em operação em novembro de 2026”, afirmou o executivo.

 

Investimentos em infraestrutura de gás natural poderiam ser usados na descarbonização da matriz

Sergio Leitão é crítico à estratégia investir na ampliação da infraestrutura para escoamento, processamento e transporte de gás natural no Brasil. Partindo da premissa que o energético é mais limpo que outros combustíveis fósseis, questiona se não seria mais vantajoso utilizar a oferta de gás natural liquefeito (GNL) importado.

“Já que o gás é apresentado como um combustível de transição, não seria mais interessante que eu importasse e não construísse toda essa infraestrutura? Não seria melhor investir em descarbonizar a matriz?”

O Instituto Escolhas entende que falta transparência e diálogo com a sociedade civil quanto ao planejamento energético do país, com diferentes governos impondo opções custosas e anacrônicas quando o assunto é fornecimento energético.

“Estamos perdendo a corrida tecnológica no setor elétrico. O Brasil é um país que adora chegar atrasado no futuro, as agora estamos precisando dar um salto nesse sentido, economizar tempo de conversa para saber onde a gente quer chegar e fazer a conta de custo”.

Sergio Leitão é um dos fundadores do Instituto Escolhas, criado em 2015.

A entrevista na íntegra com o diretor executivo do Instituto Escolhas, Sergio Leitão

O que deveria ser levado em consideração nas escolhas de investimentos na matriz energética no futuro?

Cometemos dois pecados na discussão da transição energética no Brasil: não dizer quando começava e nem quando terminaria. Além disso, não sei onde foi feita a conta do valor que a gente vai investir para tornar a estrutura de gás no Brasil rentável.

Já que o gás é apresentado como um combustível de transição, não seria mais interessante que eu importasse e não construísse toda essa infraestrutura? Não seria melhor investir em descarbonizar a matriz?

Hoje se fala muito no gás como o combustível da transição, mas não se diz até quando e quanto vai custar esse investimento. A gente tem uma conta de quanto vai custar fazer a monetização desse gás?

Se temos cada vez mais fontes novas entrando, esses preços só vão depreciar. Ainda mais no Brasil, onde é preciso começar do zero. Há o risco de uma virada tecnológica forte ocorrer e essa infraestrutura gerar um prejuízo imenso.

Essa discussão não está sendo feita?

Não. Há um déficit de discussão sobre as opções. O Brasil precisaria rever profundamente seu planejamento energético. Entramos agora em um momento de redução da atividade econômica sem perspectivas claras sobre quando sairemos dele.

Vai faltar dinheiro. Só para fazer o pacote de auxílio da crise, tudo o que se esperava economizar com a Reforma da Previdência já foi. No caso da questão do setor elétrico, a discussão é dramática.

Havia uma euforia com o debate sobre o novo mercado de gás, mas a impressão que a gente tinha era que ninguém perguntava sobre esse custo da conta. E isso agora tornou-se dramático e é impossível não olhar pra isso tendo em vista a depreciação do preço do petróleo como vemos agora.

Estamos perdendo a corrida tecnológica no setor elétrico. O Brasil é um país que adora chegar atrasado no futuro, as agora estamos precisando dar um salto nesse sentido, economizar tempo de conversa para saber onde a gente quer chegar e fazer a conta de custo.

O Brasil deve concluir a construção de Angra 3?

Hoje o custo para terminar essa obra é o mesmo de não terminar. Só que há um agravante: se termina e coloca para funcionar, terá um custo de R$ 12 bilhões a mais do que se escolher outra fonte, que é a solar.

Agora, se somamos isso ao fato de que vai ter energia sobrando, porque o tombo da nossa economia será feio, a pergunta que fica é por que o país tem que colocar esse custo no orçamento do setor elétrico?

Estamos optando por colocar um penduricalho desse volume sobre a conta de luz, onerando todo o setor industrial que vai sair dessa crise extremamente depauperado. Qual o sentido dessa opção? Não é o setor elétrico que justificaria esse dispêndio.

Já existe um indicativo de que teremos folga no fornecimento de energia pelo menos até 2021. E o Brasil vai se recuperar [da pandemia do novo coronavírus] com muita necessidade de otimizar ainda mais os seus gastos. Se vai ter que gastar tanto, faz sentido optar por essa fonte?

No estudo, o Instituto Escolhas cobra que o governo explicite os motivos para a retomada da obra de Angra 3. Quais seriam? Há aí uma opção ideológica?

Se olharmos as tônicas dos últimos governos, tanto o governo Lula, Dilma quanto o atual trouxeram de novo a retomada de Angra 3 para o centro do debate. Isso mostra que há aí uma base de discussão que precisa ser enfrentada. E são governos, do ponto de vista ideológico, como água e óleo, que não se misturam.

Mas toda a visão que se construiu no Brasil sobre a  vai na direção de apontar que ela é importante para inserir o país no clube de países que dominam essa tecnologia. Mas a construção de usinas nucleares ainda é a forma pela qual isso se viabiliza?

O professor José Goldemberg diz que esse não é mais o caso. Mas se o debate é relevante para ter autonomia nessa área, voltamos à questão de onde alocar esse investimento. [José Goldemberg é físico, professor-sênior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo].

Mas essa escolha deve ser feita apenas para agradar um lobby setorial?

Quando não se explicita quais são os desejos de cada um dos setores envolvidos no debate a gente acaba não entendendo a razão de decisões serem tomadas. Do ponto de vista do setor elétrico, a retomada de Angra 3 não é mais uma necessidade. Ele está preocupado exatamente com o tamanho da conta.

Não existe pedido, a não ser especificamente do setor de energia nuclear, sobre isso. Quando se olhava o debate lá no início do governo Lula, muita gente defendia a conclusão da obra. Hoje, temos o contrário, o preço de outras fontes caiu e nuclear continuou com um custo muito alto.

Não é mais uma questão ideológica, mas uma questão de cálculo de valor, de preço. Temos R$ 12 bilhões para gastar a mais em uma fonte para que ela provenha a mesma energia que pode ser entregue por outras fontes? Acredito que essa discussão precisa ser feita no debate do orçamento.

Falta transparência ou diálogo com a sociedade civil nas tomadas de decisão do governo sobre o setor de energia?

Sim, há déficit de discussão do setor elétrico e do governo com a sociedade. E o próprio Tribunal de Contas da União [TCU] pede isso. [O TCU analisa a possibilidade de retomada da obra da usina de Angra 3].

Angra 3, Eletronuclear

Com construção iniciada em 1981, a  teve suas obras interrompidas diversas vezes. Governo Bolsonaro incluiu o projeto no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) e pretende atrair investimento privado, mantendo o controle da Eletronuclear

Como aumentar esse diálogo?

Há o CNPE, que precisaria ser dinamizado. Hoje, o órgão é visto muitas vezes como um homologador de decisões que já foram tomadas pela cúpula do governo. Tem os locais para melhorar esse debate. O problema é que eles não são usados como deveriam. A pergunta é: por que o debate não é feito?

E qual o impacto que teremos por não fazer esse debate?

O Brasil arrisca ter energia sobrando, uma economia em frangalhos e a conta de luz mais cara do mundo porque está amarrada nesse conjunto de situações, de escolhas, que não permitem a redução da conta de luz.

O governo planeja construir mais 6 usinas nucleares até 2050 a um custo de R$ 30 bilhões. É uma previsão confiável?

A julgar pelo custo que se prevê para Angra 3 não é confiável. Esse plano não se configura como crível. Boa parte dessas novas usinas estariam no Nordeste, onde há dois obstáculos: uma situação regional crítica sobre a oferta de água e opções mais baratas de energia por fonte eólica e solar.

Já há hoje disputa forte na região envolvendo o abastecimento de água para a agricultura e para as cidades. As usinas adicionariam um terceiro fator, tornando essa conta ainda mais complicada.

Há quem defenda a opção nuclear para ajudar no cumprimento de metas climáticas. Esse debate ocorre no Japão e Alemanha.

Essa intenção não bate com a realidade que o próprio documento que a gente está lançando mostra. Mesmo nos EUA e Europa, o número de centrais em construção é muito pequeno.

Abraçar a opção pela energia nuclear afetaria ainda mais a imagem do Brasil no debate internacional sobre meio ambiente e sustentabilidade?

Eu acredito que causaria uma dúvida muito forte sobre se o país está realmente preocupado com os riscos que a fonte provoca.

Nuclear não pode falhar. Quando você não vê os bancos financiando e participando, se pergunta qual é o problema. É o risco, não tem como assegurar esse risco. Então faz sentido fazer essa escolha?