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Tese aponta que precificação da água pode aumentar a produção da cana-de-açúcar em São Paulo

Bolsista da Cátedra Escolhas, Elis Licks, se tornou doutora com estudo sobre economia ambiental aprovado na Esalq/USP

Como é praxe em qualquer defesa de doutorado, o frio na barriga não podia estar ausente. Mas depois de duas horas de muita discussão em alto nível, Elis Braga Licks, bolsista da Cátedra Economia e Meio Ambiente do Instituto Escolhas, saiu doutora de uma das salas do prédio da Pós-Graduação da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” Esalq/USP, em Piracicaba. A tese “Viabilidade de irrigação para a produção de cana-de-açúcar nos municípios de Araçatuba e de Piracicaba”, foi orientada pelo professor, Carlos Eduardo de Freitas Viana.

O trabalho defendido diante da banca pela economista nascida em Pelotas (RS) mostrou como o uso da irrigação e consequente cobrança pelo uso da água em usinas de cana-de-açúcar do interior do Estado de São Paulo pode induzir a produtividade das lavouras. “Os recursos naturais precisam ser utilizados de forma sustentável, racional e equilibrada, visto que, somente dessa maneira poderá haver desenvolvimento aliado com o meio ambiente, ou seja, desenvolvimento sustentável”, afirmou Elis em suas conclusões, ao defender a tese de que os produtores têm disponibilidade para pagar pela água usada em processos de irrigação.

Ao analisar casos hipotéticos nas duas regiões do interior paulista, o trabalho estimou o preço da água na irrigação da cana a partir de dados econômicos reais das safras de 2013/2014 a 2017/2018. A pesquisadora chegou ao valor máximo de R$ 1,20 o metro cúbico, como o preço que poderia ser cobrado dos produtores pelo uso da água na irrigação no interior paulista. Neste caso, foi o calculado para a região de Araçatuba. O valor é considerado factível de ser pago em termos econômicos, apesar de ele ser maior do que o praticado pelas agências reguladoras de recursos hídricos de São Paulo, que é de R$ 0,0127 o metro cúbico.

Para chegar aos resultados defendidos nesta quinta-feira (13/02) em Piracicaba, a nova doutora usou o chamado método do valor residual. Uma técnica dedutiva que calcula o valor da água usada no processo de produção após todos os outros custos relevantes serem contabilizados. “A partir da renda total obtida pelas usinas é deduzido todos os fatores de produção, como o capital, o trabalho e a terra, exceto a água. Como resultado tem-se o valor máximo que os produtores estarão dispostos a pagar pelo uso do recurso hídrico”.

A escolha por estudar a valoração da água em grandes culturas, como é o caso da cana, surgiu porque, como mostrou a crise hídrica que atingiu a cidade de São Paulo entre 2014 e 2015, trata-se de um bem finito. “A cobrança pelo uso da água pode aumentar a produtividade e a eficiência, além de redistribuir os custos sociais e promover o desenvolvimento regional e ambiental”, afirma a pesquisadora. Por questões técnicas e jurídicas, os produtores de cana-de-açúcar do Estado de São Paulo pagam pela água que utilizam de uma forma diferente do que ocorre com outros setores industriais paulistas.

Na visão da autora do trabalho, agora doutora em economia aplicada na Escola Superior Luiz de Queiroz (Esalq/USP), fomentar o debate pelo uso do preço da água em diferentes atividades agrícolas e industriais é fundamental nos dias de hoje não apenas em São Paulo e no Brasil, mas em todo o mundo.

Os membros da banca, além de elogios e vários comentários tanto técnicos quanto metodológicos, aprovaram a visão inovadora dada por Elis ao tema, o que não significa que ajustes e complementos não terão que ser feitos. Segundo o economista Haroldo José Torres da Silva, um dos convidados para a arguição da ainda candidata, é importante que o trabalho avance até como forma de contribuir, no futuro, para a elaboração de políticas públicas sobre o tema. Posição semelhante às apresentadas pela agrônoma Dienice Ana Bini e pelo economista da Unesp de Jaboticabal Sérgio Rangel Figueira, que também formaram a banca que aprovou o trabalho de Elis.

A valoração da água, segundo Elis, é um dos itens mais discutidos em termos de políticas públicas atualmente, porque não existe valor para ela. “A água é considerada um bem público”. O objetivo do doutorado aprovado na Esalq, segundo a autora, é estimular com mais profundidade o debate sobre a precificação da água. A ideia é que ao dar preço para a utilização de um recurso tão vital e escasso as pessoas passam a agir de forma mais racional e sustentável.

 

Sobre a Cátedra

A Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente conta com o patrocínio do Itaú. A iniciativa contempla o Programa de Bolsas Cátedra Escolhas, que oferece bolsas de mestrado e doutorado para estudantes de pós-graduação interessados em estudar Economia em sua interface com o Meio Ambiente. Conheça os bolsistas e os trabalhos desenvolvidos por eles nas redes sociais do Instituto Escolhas.

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