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Agricultura urbana sustentável pode ajudar a reverter aumento da temperatura na região metropolitana de São Paulo

Estudo do Instituto Escolhas destaca que, de 1985 a 2019, metrópole ficou 1ºC mais quente

Nesta quinta-feira, 10 de junho, o Instituto Escolhas fez o lançamento do estudo “Além dos alimentos: a contribuição da agricultura urbana para o bem-estar na metrópole de São Paulo”, mostrando que, para além de alimentar a população, a agricultura pode contribuir para mitigar o calor, reduzir inundações e diminuir a erosão do solo na metrópole, contribuindo para os chamados serviços ecossistêmicos.

O estudo é resultado de uma parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e sua iniciativa “A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade para Agricultura e Alimentação”, conhecida como TEEBAgriFood (sigla em inglês) e é uma continuação do estudo “Mais perto do que se imagina: os desafios da produção de alimentos na metrópole de São Paulo”, lançado no final de 2020 em parceria com o Urbem.

Após a divulgação dos dados, foi realizado um debate sobre o tema, com a presença de três pesquisadoras especialistas em espaços urbanos, planejamento urbano, serviços ecossistêmicos, impactos ambientais e mudanças climáticas nas cidades e agricultura urbana. São elas: Aliny Pires (professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e coordenadora da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos); Marcela Ferreira (pesquisadora associada do Instituto de Urbanismo e Estudos pela Metrópole – Urbem) e Sandra Momm (professora da Universidade Federal do ABC e coordenadora do Global SPRING Network). A mediação foi da gerente de Projetos e Produtos do Escolhas, Jaqueline Ferreira.

 

Conheça os resultados

O estudo simulou três cenários de mudanças do uso do solo da metrópole e mensurou seu impacto sobre 5 serviços ecossistêmicos: mitigação de calor; mitigação de inundações; produção de água; regulação de erosão e provisão de alimentos.

O primeiro modelo mostra o que aconteceu com os serviços ecossistêmicos entre 1985 e 2019, período em que a área urbanizada aumentou em 57 mil hectares. O segundo, chamado de BAU (Business As Usual, na sigla em inglês), mostra o que aconteceria de hoje até 2030, caso a taxa de expansão urbana da metrópole mantivesse a tendência atual e o último, chamado de Cenário 1, simula a expansão da produção de alimentos, de forma sustentável, em áreas de alta vulnerabilidade social e com pouca oferta de alimentos in natura, o que seria capaz de abastecer 13 milhões de pessoas com verduras e legumes.

Todos esses cenários estão disponíveis de forma interativa no sumário online, disponível no site do Escolhas (em alemdosalimentos.escolhas.org), assim como as informações sobre os cinco serviços ecossistêmicos analisados, uma análise das perdas e ganhos em serviços ecossistêmicos em todos os municípios da região metropolitana de São Paulo entre 1985 e 2019 e os dados abertos do estudo.

De forma geral, na comparação de BAU com Cenário 1, o estudo mostrou que a agricultura pode amenizar o impacto negativo da expansão urbana na RMSP. Por exemplo, na questão de mitigação do calor, os resultados das simulações mostraram que, entre 1985 e 2019, a temperatura média da região metropolitana de São Paulo aumentou 1ºC. Se as áreas de floresta e de produção de alimentos continuarem a perder espaço para a área urbana, a tendência é que a temperatura se eleve mais 0,6° até 2030.

Já a manutenção das florestas e a ampliação das áreas de produção agrícola sustentável podem ajudar a frear o fenômeno do aumento de temperatura, reduzindo-a em 0,2° C em relação à de 2019, visto que são as áreas verdes que asseguram a manutenção da temperatura, ao resfriar o ambiente e absorver o calor. Porém, conforme explica Jaqueline Ferreira, esse efeito só acontecerá se a agricultura desenvolvida for sustentável, com práticas como manejo ecológico do solo, manutenção de árvores em seu sistema produtivo, não utilização de agroquímicos e emprego de técnicas de irrigação mais eficientes.

 

Destaques do evento

O debate de lançamento discutiu o impacto do uso insustentável do solo e dos recursos naturais da metrópole no bem-estar dos seus moradores e quais as soluções podem ser pensadas nesse contexto.

Jaqueline abriu a conversa citando que o crescimento da área urbanizada tem impactos que podem ser sentidos pelos seus moradores, como a redução da água potável disponível e o aumento da frequência de inundações. Em seguida, passou a palavra para as palestrantes, que se alternaram em perguntas específicas. Veja aqui o evento na íntegra.

A competição desleal entre agricultura urbana e o mercado imobiliário pelo uso do solo foi um dos temas mais ressaltados, visto que o preço da terra nas cidades é muito mais alto do que o preço da terra que o agricultor pode pagar, tornando um desafio ter uma produção rentável com agricultura nas cidades.

Outro assunto bastante debatido foi a questão hídrica. Ao citarem a seca que o País enfrenta mais uma vez, as pesquisadoras concluíram que pouco se aprendeu com as lições do passado.

“Entre todos os serviços ecossistêmicos, a água é o que as pessoas mais sentem falta, por ser um componente fundamental para o nosso bem-estar. Podemos falar de água em diferentes aspectos, como qualidade, quantidade ou de regularidade nos fluxos. Mas devemos ter em mente de onde vem a água e ter esse ativo disponível”, chamando a atenção para a importância das áreas protegidas para a produção de água e regulação das chuvas.

Para Sandra, depois da crise, mesmo tendo se investido em infraestrutura, pouco se fez para atenuar as causas e garantir as estruturas verdes nas bacias capazes de produzir água. “Além disso, todo esse desmatamento na região amazônica certamente não ajuda para enfrentar o problema”.

As pesquisadoras ressaltaram ainda que o processo de urbanização vai se tornar cada vez mais importante como vetor do uso do solo, perda de biodiversidade e de perda de serviços ecossistêmicos. Por isso, as políticas públicas devem acompanhar essa mudança, incorporando medidas de promoção aos serviços ecossistêmicos, mas também implementando o que já existe.

“O Brasil já tem um arcabouço de política pública muito bom. Tanto é bom que se quer desmontar. Assim, a primeira solução seria olhar para o que já temos para então tentar viabilizar instrumentos progressistas, de acordo com a realidade de cada município. A agricultura urbana entra nesses pacotes de inovação, por incluir a infraestrutura verde dentro das cidades e fazer o nexo entre água, energia e alimentos”, diz Sandra.

Outra possibilidade destacada foi o incentivo aos programas de Pagamentos por Serviços Ambientais – que têm sido utilizados para valorizar a contribuição da agricultura sustentável para a provisão de serviços ecossistêmicos – também nas cidades, como forma de incentivar a agricultura urbana e periurbana. Para Aliny, essa é uma solução possível, mas depende de uma questão importante: “quem é que vai pagar por esses serviços?” e envolveria uma mudança de paradigma, em uma união de governo e empresas.

Já Marcela acrescenta que existe muito espaço para transformação se olharmos para o meio ambiente de outro jeito. Dessa forma, podemos encontrar soluções para esses desafios, que não poucos. “Existem muitas áreas livres nas cidades. Por que não podemos usar essas áreas para agricultura, aproveitando os resíduos que já são gerados para compostagem?”.

 

O estudo “Além dos alimentos: a contribuição da agricultura urbana para o bem-estar na metrópole de São Paulo” está disponível em alemdosalimentos.escolhas.org