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Entrevista do mês: Rudi Rocha

Políticas públicas precisam ter base em aspectos técnicos

A proposta do Instituto Escolhas de trazer números para o debate da área ambiental é fundamental para qualificar as discussões sobre o tema, segundo o economista e conselheiro do Instituto Rudi Rocha. Professor adjunto de Métodos Quantitativos e Econometria Aplicada do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Econometria (SBE), Rocha acredita que essa especialidade é fundamental para melhorar as políticas públicas no Brasil, hoje pobres nos aspectos técnicos e, principalmente, empíricos. “Várias políticas são feitas no escuro, muitas vezes contaminadas pelos interesses de quem propôs. Há, de fato, grupos econômicos que se beneficiam com políticas pouco rigorosas na área ambiental – e isso acontece em todas as áreas -, daí a necessidade de qualificar cada vez mais a agenda”, disse.

Escolhas – Quando se fala em desenvolvimento, a primeira coisa que vem à mente é a questão econômica. O meio ambiente apenas recentemente começou a fazer parte desse pacote. Por que isso está acontecendo?

Rudi Rocha – Temos amadurecido rapidamente para incorporar a dimensão ambiental ao desenvolvimento. As questões sociais já ganharam forma há uns 20 anos, mas as ambientais estão mais presentes há apenas uns dez. Isso vem acontecendo porque estamos vivendo na pele alguns dos efeitos das mudanças climáticas: eventos extremos, ondas de calor fora de lugar, tempestades, secas. É possível medir que esses fenômenos estão fora da curva e as pessoas têm ficado sensíveis a eles.

Escolhas – Como a econometria, que é sua especialidade, pode ajudar nessa incorporação?

Rocha – A econometria quantifica relações entre variáveis, como uma variável impacta outra. Qualquer assunto pode ser discutido tanto no Senado como no botequim, mas devemos responder tecnicamente, dar números. Precisamos perguntar se esses números são grandes ou não, se são confiáveis e qual o intervalo de confiança. Se bem feita, a econometria permite responder de maneira precisa.

Escolhas – Que impactos estudos desse tipo podem ter nas políticas públicas do país?

Rocha – O debate sobre políticas públicas no Brasil é pobre nos aspectos técnico e, principalmente, empíricos. Várias políticas são feitas no escuro, muitas vezes contaminadas pelos interesses de quem propôs. Há, de fato, grupos econômicos que se beneficiam com políticas pouco rigorosas na área ambiental – e isso acontece em todas as áreas -, daí a necessidade de qualificar cada vez mais a agenda.

Escolhas – A proposta do Instituto Escolhas pode ajudar a qualificar a discussão e preencher essa lacuna?

Rocha – A ideia do Escolhas é especial e não apenas para a área de meio ambiente, pois é transversal para qualquer política pública. A área ambiental é, em geral, muito presa a posições com grande carga ideológica, onde as posições tendem a estar em nos extremos: de um lado ambientalistas e, do outro, empresários. Por isso, uma instituição com uma proposta de qualificar o debate com dados e informações com base técnica é tão importante.

Escolhas – Seria possível exemplificar como análises numéricas podem ajudar em decisões sobre políticas públicas ambientais?

Rocha – Tentamos, nesses estudos, analisar várias dimensões do objeto de estudo. Por exemplo: descobrimos que o índice de sustentabilidade no Brasil está estável, só que isso acontece porque há menos desmatamento, mas a poluição dobrou. Isso significa que esse índice sozinho não significa nada. Precisa de análises finas para cada área. Não sei se, no Brasil, temos pernas para estudar tanta coisa, mas é preciso escolher as áreas prioritárias.

Escolhas – Quais são, em sua opinião, as escolhas mais urgentes a serem feitas no Brasil em relação ao meio ambiente?

Rocha – De modo geral, é necessário trazer a agenda ambiental para a opinião pública, mostrar que o que fazemos agora tem consequências. O futuro é agora e estamos continuamente fazendo escolhas. Se conseguirmos divulgar isso, já é um bem público enorme. Na área ambiental há uma inércia, os impactos são de médio e longo prazos, mas se não fizermos nada pode ser tarde demais. Isso significa escolher outros caminhos ou ficar no mesmo e assumir os riscos. Prover informações sobre isso nunca foi tão importante. Quando se tem uma coalizão forte no Congresso Nacional, eleito por nós, que altera o Código Florestal, por exemplo, a sociedade tem que estar ciente das consequências. Temos hoje um retrocesso sem precedente. Voltamos a falar em temas que pareciam resolvidos há 20 anos. Sempre que trazemos questões de curtíssimo prazo para prioridade há retrocesso. Quando ninguém está prestando atenção, quem tem mais poder político, traz seus interesses.