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ENTREVISTA DO MÊS – TEREZA CAMPELLO: O que o brasileiro quer é comer arroz com feijão

Tereza Campello

Segundo Tereza Campello, a superexposição à propaganda e maior facilidade de compra de produtos ultraprocessados têm piorado a alimentação no país

Chegamos em dezembro. No mês que encerra um ano difícil que somou pandemia e crise financeira, o tema da entrevista do mês do Escolhas é a segurança alimentar. Para comentar o assunto, nossa entrevistada é Tereza Campello, ex-ministra de Desenvolvimento Social e do Combate à Fome (de 2011 a 2016). Economista e estudiosa sobre o tema, Campello é também pesquisadora associada da Universidade de Notingham, no Reino Unido, e faz parte do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), da Universidade de São Paulo (USP).

Na primeira parte da conversa, Tereza aborda os efeitos da pandemia no agravamento da fome, os reflexos da doença na disponibilidade de alimento e quais as medidas o governo poderia ou ainda pode tomar para amenizar a crise e proteger a população dos aumentos de preços refletidos pela onda de Covid-19. Segundo ela, o país foi avisado no início de 2020 sobre os impactos que a pandemia de coronavírus poderia ter na disponibilidade interna de alimentos. Mas, ao decidir pela autorregulação do mercado, o governo assumiu os riscos, que culminaram na recente alta do arroz e de outros itens alimentares.

“Enquanto alguns países protegeram seu povo, o Brasil tirou vantagens exportando seu arroz, em vez de mantê-lo dentro do Brasil. O preço do arroz aumentou porque o real perdeu valor frente ao dólar e porque o Brasil não estava preparado para atuar regulando mercado”, comentou a ex-ministra.

A importância de garantir uma alimentação de qualidade, em especial para os mais pobres, com respeito e valorização à nossa cultura alimentar (em detrimento aos alimentos ultraprocessados) também foi abordada na entrevista, que falou sobre aspectos de sustentabilidade na discussão da reforma tributária e acendeu ainda uma luz sobre a necessidade de aumentarmos a produção acadêmica do Brasil no tema da alimentação e de incentivarmos a produção agricultura sustentável nas cidades, melhorando os hábitos alimentares da população.

Veja a entrevista completa abaixo:

 

Escolhas – Há cerca de três anos, você lançou o livro “Faces da Desigualdade no Brasil”, em que mostra os avanços em diversas áreas na redução da desigualdade do país. Hoje, o índice Gini, que em 2015 estava em 0,494, está em 0,509, mostrando um aumento da desigualdade. A pandemia do coronavírus, com as medidas de isolamento social, aumentou e evidenciou essa desigualdade estrutural do país, com o aumento de desemprego e da fome. Nesse contexto, quais são hoje as características da população mais vulnerável do país? Quais são os maiores desafios das políticas de combate à desigualdade hoje?

Tereza Campello – Hoje há uma decisão consensual até entre economistas, e é claro que também entre pesquisadores na área social de humanas, de que desigualdade não é só riqueza: nós precisamos analisar o conjunto das desproteções e dos não-acessos entre os diferentes setores da sociedade e, portanto, olhar as desigualdades como uma matriz. É necessário, por exemplo, olhar desigualdades entre os pretos e os brancos, entre o que afeta as diferentes idades –as crianças do Brasil, por exemplo, são muito mais pobres do que os idosos–, ou do ponto de vista de acesso a saneamento. Em geral, quem é pobre de renda é pobre das outras coisas também: é pobre de água, é pobre de alimentos de qualidade, é pobre de educação, de saúde. Então, o esforço do Faces da Desigualdades no Brasil era abordar essa agenda, mas a partir do olhar dos pobres. No Brasil, ficou muito comum discutir desigualdade comparando os 1% mais ricos e o resto da população. Então, você diz “ah, o Brasil é muito desigual, o 1% mais rico concentra tanto porcento da renda, enquanto o resto da população tem menos da metade do que isso” -só que o resto da população é muito desigual também. Além disso, muitas vezes, uma política pública que chega em uma população pobre não se traduz em renda. Vou pegar o exemplo de cisternas, que considero um exemplo excepcional porque é uma política pública que chega a um público claramente excluído, que é a população nordestina. A população nordestina é muito mais pobre do que o resto do Brasil; a população nordestina rural é muito mais pobre do que o resto da população rural no Brasil e ainda mais pobre que a população urbana, então é claramente um público onde a desigualdade de renda e o conjunto das desigualdades o afetam violentamente. Quando uma família ganha uma cisterna, ela passa a ter acesso à água, e não só como qualidade de vida pessoal, como isso tem impacto no seu acesso à renda, já que com essa cisterna muitas vezes ela consegue produzir mais, ela consegue ter água para as galinhas, coisa que ela não tinha. Não é somente água para beber e conforto. E ela faz isso de forma sustentável porque essa cisterna não gasta energia, coleta água de chuva e não emite de carbono. É um ganha-ganha geral e isso não é computado no PIB, não é computado pelo IBGE, não é computado na renda, não é computado por nada. Essa família teve uma redução de desigualdade super importante e isso não está nas estatísticas. Nós construímos esse livro exatamente para tentar ter uma visão holística da desigualdade que afeta a população de baixa renda e, inclusive, com essas dimensões de educação, de saúde, de acesso a bens de consumo, de acesso à água e ao saneamento, que são questões de impacto também ambiental e de sustentabilidade. Aqui, a palavra sustentabilidade é isso: a cisterna dura 30 anos (eu estou pegando as cisternas como exemplo que acho que é um marco em uma agenda de construção de políticas públicas, superando as desigualdades). E quando a gente olha o período recente não foi só a pobreza que aumentou. O Gini mostra o aumento da pobreza e o aumento da desigualdade. A pobreza aumentou no Brasil drasticamente neste período. No caso da extrema pobreza, nós voltamos a 2006 (é todo um esforço de 13 anos de redução de pobreza e rapidamente você volta a índices do início do século), mas as desigualdades vão aumentar de forma multidimensional. Por exemplo, parou-se de construir cisternas no Brasil, assim como outras várias ações pararam.

 

Escolhas – Você participou da criação do Bolsa Família que continua, até hoje, como uma referência mundial de política de transferência de renda e combate à fome. Com a pandemia, uma solução encontrada para assistir essa população vulnerável foi a do auxílio emergencial que garantiu renda da população no momento de crise. O que essa experiência nos ensina ou faz refletir sobre modelos de programa de assistência social? Quais os desafios de garantir sua ampliação em momentos de crise como esta?

Tereza Campello – Essa pergunta é bem interessante porque permite que nós comparemos as situações. Uma coisa é uma política de natureza continuada e outra coisa é estar preparado, como Estado, para atuar em situações emergenciais. Uma referência mais compreensível é: uma coisa é você ter uma política agrícola, seja de fomento, de regulação, de regulação de estoques. Outra coisa é você ter uma situação completamente atípica, como uma seca inesperada ou uma geada que impacta toda a produção. Neste caso, você tem que estar preparado com um seguro, não é uma política de fomento tradicional. De certa forma, o auxílio emergencial era um seguro de renda não continuado, porque essa situação de pandemia é uma situação completamente atípica. Você teve uma interrupção abrupta da economia, uma interrupção de toda a economia mundial –diga-se de passagem não foi só no Brasil– e essa interrupção gerou crises generalizadas, tanto de interrupção de cadeias de produção quanto de interrupção da renda de uma parcela enorme da população, à medida em que as empresas fecharam e houve interrupção das atividades econômicas e de quem trabalhava na informalidade. Então, essa é uma situação atípica e em que o Estado brasileiro conseguiu reagir de certa forma um pouquinho melhor porque existia o Bolsa Família e o Cadastro Único. Quem estava no Bolsa Família e no Cadastro Único pôde receber o auxílio emergencial imediatamente. Quem não estava acabou demorando três, quatro meses, portanto, recebendo muito atrasado. E esse era um recurso de sobrevivência para a população que não era pobre, que não estava em situação de pobreza estrutural, mas caiu na pobreza ou na vulnerabilidade de renda por conta dessa abrupta interrupção. Então, há duas coisas bem interessantes de discutir: no caso do Brasil, o coronavírus, a Covid-19, nos atingiu em um momento dramático. Você teria uma situação grave drástica em qualquer momento da nossa história, mas, por exemplo, em 2014 você teria uma outra situação porque você tinha 6% de desemprego no Brasil e a grande maioria da população estava na formalidade, portanto, com empregos com carteira assinada. A partir de 2015, foi que o desemprego começou a aumentar. Quando a Covid atingiu o Brasil, a gente já tinha 12% de desemprego. Não é que você não tinha desemprego e, por conta da Covid-19, a situação piorou. Não. Você já tinha o desemprego muito alto, portanto você já tinha uma parcela da população fragilizada no ponto de vista do mercado de trabalho e das condições de renda. Segundo: a desorganização do mercado de trabalho jogou uma grande parcela da população na informalidade, com que a gente chama de “pejotização”, de uberização, de trabalhadores em plataformas. Então, desistimos do emprego formal e começamos a fragilizar o mercado de trabalho, inclusive com a destruição da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). São pessoas que com a Covid-19 acabaram caindo em uma situação de completa desproteção, sem seguro-desemprego e sem que o Estado pudesse, inclusive, gerar situações de proteção, como aconteceu na Inglaterra, na Alemanha e em outros lugares. Com isso, o auxílio emergencial acabou sendo uma forma rápida de garantir minimamente uma sobrevivência para a população e mais: garantir também que, mesmo que minimamente, a economia não parasse, porque essas pessoas continuaram comprando, continuaram se alimentando e, com isso, garantindo que o colchãozinho de renda mantivesse essa economia funcionando, para as pessoas continuarem comprando o básico. Alguns estudos recentes mostraram que o auxílio garantiu, por exemplo, que o PIB caísse pela metade do que ele cairia se ele não existisse. Mas, voltando à pergunta original, o Bolsa Família não foi criado para situações dramáticas como a Covid-19. Nenhum país do mundo estava preparado. Nenhum país do mundo tinha uma política de transferência de renda tipo o Bolsa Família, que pudesse responder a uma crise com essas proporções. Todos eles tiveram que tomar medidas emergenciais. Por isso, que o auxílio é um auxílio emergencial. O que o Bolsa Família tem – e por isso que ele é o maior o melhor e mais eficiente programa de transferência de renda do mundo – não é um cartão bancário com um aplicativo. O Bolsa Família é uma porta de entrada para o Estado. Quando a pessoa procura o Bolsa Família, ela é recepcionada no Estado por um servidor público, que é o assistente social, que passa a conhecer as suas privações. Não só a pessoa está pobre de renda, mas ela muitas vezes está sujeita a algum tipo de violência, a uma desproteção. Então o Bolsa Família é uma porta de entrada para uma rede de proteção que conhece onde a família mora, conhece onde a família vive, quais são as suas proteções, quem estudou, como ela trabalha, se é indígena, que língua ela fala. Tudo isso nós temos no cadastro único, por isso ele é tão eficiente.

 

Escolhas – A pandemia do coronavírus também impactou nos processos de produção e distribuição de alimentos e explicitou as fragilidades do nosso sistema alimentar, como o aumento da fome, dos impactos ambientais, do preço de alimentos, das interrupções no abastecimento e até mesmo do desperdício. No país, vimos o aumento de preços de produtos base no prato do brasileiro como o arroz. O que o país poderia ter feito para que isso não acontecesse? Como as políticas de abastecimento e segurança alimentar e nutricional podem mitigar impactos como o trazido pela pandemia, considerando que o país é um grande produtor agrícola e o tamanho do mercado interno? 

Tereza Campello – O Brasil tem abdicado de se posicionar em defesa do interesse público. Existe o discurso hoje no país de que é assim: “é o livre mercado… não podemos interferir”, como se o mercado pudesse se autorregular. E essa tragédia de coronavírus traz algumas reflexões muito importantes. Vou retomar o arroz como exemplo: em março, eu participei de várias atividades coordenadas pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), que desde janeiro, fevereiro, começou a chamar os Estados para discutir quais poderiam ser os impactos da Covid. Nessas reuniões que a FAO promoveu, nós vimos que alguns países que são grandes consumidores e que também são grandes produtores de arroz imediatamente tomaram medidas para proteger o mercado interno. Taiwan, Vietnã, Filipinas, Índia ou China, que são grandes consumidores de arroz como o Brasil, tomaram medidas para proteger o seu povo e a sua segurança alimentar. Isso em janeiro, fevereiro e março. E o que o Brasil fez? Nada e não porque ele não soubesse que ia ter problemas no mercado internacional de arroz. Ele sabia, ele foi alertado Pelas Nações Unidas que isso ia acontecer. Ele fez nada então, por quê? Ele fez uma opção porque interessava aos grandes exportadores brasileiros exportar a um preço vantajoso em vez de proteger o povo. O arroz para o povo brasileiro é fundamental. O arroz representa em torno de 15% da energia no prato do brasileiro, mas não é só isso. O arroz tem um outro papel importante porque ele organiza o prato. Quando você coloca o arroz no prato é como se ele chamasse um feijãozinho, um chuchu, uma abobrinha, uma alface, um tomate –se você puder–, uma carne ou um ovo. O arroz chama outras coisas. Aí, quando o governo disse “então, coma macarrão”, essa é uma resposta criminosa. O trigo não é da nossa cultura e quando você coloca o macarrão no prato ele chama uma salsicha para o pobre, não vai chamar o feijão com abobrinha. Ele desorganiza o nosso prato, a nossa cultura, a nossa tradição. Isso que o governo fez é criminoso do ponto de vista cultural. Ele vai acelerar a transição alimentar no Brasil, que é um dos países que resiste na transição alimentar. Na Inglaterra, por exemplo, a grande maioria dos produtos que está no prato do da população é de super e ultraprocessados. Não é só porque passou por algum processo de industrialização, é porque ele já não é mais comida, ele é outra coisa. Já no Brasil, se o brasileiro puder cozinhar ele vai querer cozinhar um arroz com feijão, fazer um peixe. Nós ainda resistimos, mas o governo está apostando em acelerar esse processo à medida em que ele desorganiza. O preço do arroz aumentou não porque o povo comeu mais arroz, como o governo quer insinuar por causa do auxílio emergencial. O preço do arroz aumentou porque reduziu o arroz no mercado internacional quando alguns países protegeram seu povo e o Brasil tirou vantagens exportando seu arroz, em vez de manter o arroz dentro do Brasil. Aumentou o preço do arroz porque o real perdeu valor frente ao dólar e porque o Brasil não estava preparado para atuar regulando mercado. O governo acabou com a política de estoques, acabou com o programa de aquisição de alimentos, está se preparando para vender os armazéns que a gente tinha no Brasil -que eram armazéns que permitem estocar feijão, arroz, milho, que são essenciais. Por exemplo, foi essencial ter estoque de milho quando a gente teve seca no Nordeste, porque é a melhor comida para galinha e para pequenos animais. Então, o Brasil está abrindo mão no seu papel como regulador e com isso jogando o país e a sua população no risco de insegurança alimentar gigantesca.

 

Escolhas – Hoje o brasileiro está não só consumindo menos produtos in natura e mais produtos ultraprocessados, como está também se alimentando mais fora de casa. A obesidade já é um grave problema de saúde pública, assim como o aumento de doenças graves como diabetes e hipertensão. Olhando agora a esfera do consumo, o que pode ser pensado em termos de políticas públicas para alterar os hábitos da população? O que já foi feito e o que ainda precisa ser feito neste sentido?

Tereza Campello – Para todas as questões envolvendo a fome, a pobreza, a obesidade… nós não podemos pensar naquela bala de prata, na solução mágica. “Vamos fazer tal coisa, que isso vai resolver”? Não vai. Nós sempre devemos pensar no conjunto de políticas públicas que permita que nós superemos fenômenos dramáticos, como é a fome, sem cair na obesidade e, ao mesmo tempo, garanta segurança alimentar, garanta e preserve nossas culturas alimentares e assim por diante. Então, tem gente que fala: “olha o povo: é só ganhar um pouco mais de dinheiro e acaba comendo comprando porcaria”. Quando a gente olha o desenho no Brasil é engraçado porque a população que já tinha renda começou a transição alimentar muito antes dos pobres. Então, quando você pega a classe média e classe média alta, elas já vinham numa transição alimentar comendo mais alimentos processados e ultraprocessados, apesar de terem renda suficiente para comprar produto orgânico. O pobre no Brasil, ao ter acesso à renda, está sendo massacrado pelos mesmos males que têm massacrados as crianças de classe média, que é a super exposição à propaganda, uma super exposição a produtos inadequados ou a facilidade de acesso a produtos também inadequados. Então, hoje existe, de fato, convivendo na sociedade ao mesmo tempo a pobreza, a desnutrição e a obesidade, assim como a obesidade já acometia setores de renda média e renda alta. Então, vou citar um conjunto de políticas que têm que ser fortalecidas para evitar isso. Eu acho que uma delas, e que o Brasil é exemplar, é a política de alimentação escolar, que é a merenda escolar. Nós conseguimos no Brasil duas coisas: o programa de alimentação escolar no Brasil é um programa antigo, que existe desde a década de 40, se não me engano, só que, durante muito tempo, ele fornecia para essas crianças da rede pública um lanche muitas vezes inadequado. Era biscoito recheado, um suco artificial ou aquelas papinhas ultraprocessadas, um farináceo colorido com gosto artificial de morango. A criança tomava aquela gororoba horrorosa, extremamente doce, que enchia a barriga, mas com prejuízos variados: perdia o hábito alimentar, começava a gostar desse gosto doce, ficava viciada em açúcar e assim perdia o paladar. Quando a gente em 2009 fortaleceu o Programa Nacional de Alimentação escolar, que a gente chama de PNAE, a merenda escolar passou a estabelecer que no mínimo 30% do dinheiro do Governo Federal deveria ser usado para comprar localmente, do agricultor familiar, prioritariamente cotas de verdura, de frutas, de legumes, ou de produtos minimamente processados, como arroz, feijão etc. Isso criou um ganha-ganha fantástico, em que você passou a comprar e a fortalecer a economia local com os vários ganhos, como não só de reduzir o transporte e as perdas que o transporte tem, mas reduzir emissões, fortalecer a economia local com esses circuitos curtos. À medida em que você come localmente, a tendência é que você compre produtos mais frescos e com isso a criança na escola deixa de comer o produto super químico, cheio de açúcar e aditivos e passa a comer um arroz com feijão, com abobrinha, com chuchu, com quiabo, com coisas que acostumam ela não só a ter alimento saudável, como a manter sua cultura e comer localmente. Uma criança no Pará vai comer açaí na escola, vai comer um pescado, vai comer castanha do Brasil, como a gente começou a comprar. Isso valoriza inclusive a biodiversidade que a gente começou a fazer. A merenda da escola talvez seja o melhor exemplo porque ela é multidimensional, ela conseguiu ter várias frentes: ela melhora a renda da família, já que à que medida que a criança come na escola é uma refeição a menos em casa, gera renda indireta, alimentos saudável, circuitos curtos, fortalece a renda da Agricultura Familiar. Isso acabou acontecendo com política de crédito para agricultura familiar, políticas voltadas para a assistência técnica, política nacional de fortalecimento da produção agroecológica. O grande problema é que essas políticas todas vêm sendo desmontadas. Então, ao passo que vem aumentando a pobreza no Brasil, como a gente dizia na nossa primeira era pergunta, outras políticas que garantiam que o processo de inclusão e de melhoria de vida estão sendo desmontadas.

 

Escolhas – Recentemente, o Escolhas lançou um estudo sobre o potencial de produção agrícola na região metropolitana de São Paulo, que surpreendentemente, seria suficiente para abastecer toda sua população com legumes e verduras produzidas localmente. Você entende que grandes centros urbanos têm um papel na configuração das formas de produção e distribuição de alimentos? Não só no Brasil como no mundo todo? 

Eu tive oportunidade de ver o Sumário e eu me surpreendi com a quantidade, a riqueza e a diversidade que se identificou em torno de São Paulo –e isso que eu conheço bastante e até tenho um texto escrito sobre soluções para médias e grandes cidades. Então, mais do que falar sobre São Paulo ou sobre o estudo, o que para mim ficou claro aqui é que acho que todas as cidades deveriam fazer algo parecido com o que vocês fizeram. Nós estamos com os prefeitos assumindo agora no Brasil todo. O Governo Federal vem desmontando a política de segurança alimentar e nutricional saudável e nós temos o espaço grande para os governos estaduais agirem e principalmente as prefeituras, que estão assumindo, agirem. O estudo que o Escolhas fez mostra que provavelmente em todas as cidades nós vamos ter realidade parecidas com essa, um monte de espaços possíveis de produzir; vários agricultores e várias áreas urbanas produzindo alimentos frescos, saudáveis e que é de desconhecimento. O que esse estudo mostra é que isso é uma tragédia, porque impede que a gente planeje. O setor público ao ter informação pode fazer escolhas, ele pode ver o “vamos tentar ver se aquela escolha, é induzir que essas políticas possam ser valorizadas, é induzir que essas ações (que aconteceram muitas vezes voluntariamente, não de forma tentada) possam progredir, porque muitos desses negócios, dependendo da situação, são frágeis, podem acabar. Você tem um pequeno quintal produzindo frutas e legumes. Dependendo do que acontecer, se alguém deixa de comprar, ele acaba perdendo. A produção desaparece e a pessoa vira costureira ou vai trabalhar em uma indústria. Então, o que o Estado – falando como Poder Público – pode fazer para estimular para que essas descobertas, essas evidências que vocês trouxeram nesse estudo possam se transformar de fato em benefício para que a população acesse essa riqueza, essa diversidade toda que as cidades podem produzir? Eu, realmente, fiquei muito feliz com os resultados. Nós temos uma certa intuição de que é possível, mas é diferente ver que já está acontecendo, que está lá na nossa cara. E se você aliar isso com outras políticas? Eu lembro que no governo Haddad, o governo tomou uma decisão de comprar só arroz orgânico para merenda escolar. O arroz orgânico não é produzido aqui no Cinturão Verde, mas imagina você ter o alimento produzido aqui, localmente, verde, fresco, aliado com arroz orgânico. O que isso pode trazer de transformação, inclusive de saúde, para essas crianças pobres, comendo o que existe de mais saudável no mundo? Eu morei na Inglaterra nos últimos dois anos. Minha filha não comia na escola porque a comida deles na escola é cachorro-quente, pizza, macarrão, assim eles vão variando. Ela não conseguia comer porque era aquela coisa pingando óleo e levava de casa quinua com peixe, com salmão, um sanduiche integral. Então, imagina uma criança no pobre no Brasil comendo arroz orgânico, verduras, salada fresca, um luxo -e um luxo barato.

 

Escolhas – Estamos em meio a uma discussão de Reforma Tributária que pode ter impactos significativos na renda, assim como nos preços dos bens de consumo. Como você vê propostas da sociedade civil – como as campanhas para uma reforma tributária sustentável e saudável – de taxação de alimentos ultraprocessados ou oriundos de processos produtivos que degradam o meio ambiente? Qual o potencial dessas medidas para alterar os hábitos de consumo da população? Há riscos?

Como tinha dito, nós não podemos achar aqui só uma bala de prata. Eu não acho que só a questão tributária resolve, a não ser que você taxe os processados a ponto de impedir sua comercialização. Vou pegar a questão do tabagismo no Brasil. O Brasil tem uma experiência com o tabagismo, uma política antitabagista que é uma experiência belíssima. Estou sem o número preciso, mas a gente tinha um percentual da população adulta que era fumante gigantesco no Brasil e foi reduzido em 20 anos a patamares nunca antes imaginados. Com o que? Conjunto de políticas: a questão tributária muito forte, com uma proibição de propaganda. Antes, quando eu era jovem e, inclusive, era fumante, a imagem do cigarro era aliada à imagem de que era lindo você fumar: era atleta e fumando, andando a cavalo e fumando, navegando, em um iate, e fumando e foi eliminado. Não pode mais ter propaganda de cigarro. Na verdade, é uma antipropaganda. Você pega o maço de cigarro tem uma pessoa podre, exposta, com as vísceras expostas. Vamos fazer isso junto, aliando aumento de preço. Acho muito importante que agenda da reforma tributária possa se incorporar a uma agenda de reconversão para a questão da sustentabilidade. Então, alinhando essa questão de valorizar alimentos frescos, minimamente processados, com sustentabilidade e com outros elementos. É produzido por quem? Se é produzido pelo pequeno, se é produzido na floresta, tudo isso tem que ser olhado. Portanto, é ideal se a gente conseguir valorizar esses produtos na origem, valorizar que são produtos da sociobiodiversidade, valorizar que são da cultura nacional, valorizar nosso patrimônio imaterial, cultural, alimentar e aliar isso à questão de sobretaxar os ultraprocessados, produtos com muito agrotóxico, muito agroquímico, que, várias vezes, fazem mal não só para o ser humano mas também para a natureza. Eu acho fundamental que vocês estejam levantando essa agenda porque não dá para pensar a questão tributária no Brasil pensando só na arrecadação. E a questão tributária no mundo todo tem ganhado esse lado também de ser um elemento indutor de um novo modelo. Agora isso não pode vir sozinho, isso tem que ser casado com medidas de regulação muito poderosas para o Estado. Por exemplo, não estimular comprando produtos ultraprocessados, como ele faz muitas vezes. Nossos hospitais públicos: você vai no hospital público e eles te dão o que? Gelatina e aquelas caixinha de suco. A pessoa está doente, se recuperando e o que come? Gelatina que é uma bomba de aditivo e aquele suco ultraprocessado, que não tem nem cheiro de fruta fresca. Então por que nós estamos comprando porcaria? Por que a gente não serve uma papinha de maçã? Tem um o conjunto de coisas que deveriam ser feitas junto com essa e que certamente o impacto seria genial, como a gente conseguiu fazer com o tabagismo. E tem gente que diz: “mas é uma questão cultural, é muito forte, arraigado, esse desejo por comer sanduíche, hambúrguer”. Como assim? Há 20 anos não tinha isso. Nós entramos numa transição onde o momento de alegria da Criança é ir ao McDonald’s, em vez do momento de alegria da criança ser comer um arroz doce, comer um bolo de cenoura, como era. E por que não podemos recuperar isso? Isso não é uma questão de livre escolha, é deixar a população ser capturada por essa indústria nefasta que induz para ganhar dinheiro a população a comer mal.

 

Escolhas – Você hoje é pesquisadora associada da Universidade de Nottingham e agora está na USP, no Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens). Qual a importância da pesquisa sobre o tema dos sistemas alimentares no Brasil e no mundo? Que dados ainda precisam ser gerados e que abordagens ainda são necessárias?

É fundamental investir em pesquisas nessa área. O Brasil tem uma enorme quantidade de experiências saudáveis e sustentáveis, aliás, nós temos coisas maravilhosas acontecendo no mundo todo. Tem gente produzindo com semente crioula, gente conseguindo fazer melhoramento de sementes sem fazer mudanças genéticas, agricultores familiares descobrindo formas sustentáveis de produzir no semiárido, no Cerrado, na floresta, com índices com altíssima produtividade e com impactos positivos do ponto de vista ambiental excepcionais. Nada disso tem produção científica ou está sendo publicado. Então, o que acontece: hoje você tem pouquíssima produção científica, e o que existe é especialmente em língua inglesa. Nós podemos ter muitos exemplos comprovando a sustentabilidade econômica e as os ganhos na valorização das cadeias da sociobiodiversidade no Brasil. Você tem cadeias que poderiam estar batendo alto valor agregado, impactos importantíssimos em manter a floresta em pé, melhoria da renda da população pobre e altamente vulnerável sem impactos na floresta, no meio ambiente e nos biomas, que são riquíssimos e diversos do Brasil, mostrando que esse ganha-ganha pode ter sistemas sustentáveis economicamente viáveis. Isso pode ser colocado no papel e virar um paper. Pode ser produzido e mostrar, por exemplo, que é mais eficiente e mais rentável do que derrubar a floresta, colocar um bando de gado em cima ou mesmo ocupar o Cerrado produzindo grãos, em modelo de plantation, que não só é caro como é ineficiente e ruim para a saúde, trazendo monotonia alimentar. Nada disso a gente tem produção científica suficiente. Os vazios urbanos, os desertos alimentares ou esse estudo que vocês fizeram, por exemplo, e que seria muito bom ter paper mostrando como vale a pena as cidades produzirem e isso é invisível né os olhos do Poder Público. Então, muita pesquisa tem que ser feita. Por exemplo, nós fizemos no Brasil 1,2 milhão de cisternas e não tem um paper internacional em língua inglesa mostrando que essas cisternas são eficientes, que trazem a justiça social e têm o impacto mega positivo do ponto de vista ambiental e de saúde pública. Não tem. Então, temos esse desafio. A gente confronta muito ainda o saber científico com o saber popular. O Brasil mostrou que existe um saber popular e não tem qual é o melhor e qual é o pior, qual é mais eficiente, qual é mais correto. Existe um saber popular que nos ensina muito na Academia, que a gente tem muito a aprender com esse conhecimento popular, a ciência produzida pelo povo,  mas que ainda não foi decodificado transformado em paper. Este é um desafio enorme, riquíssimo, e que eu acho que todos nós, na Academia, vocês aí, no Escolhas e no terceiro setor todo, têm muito a oferecer.