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Escolhas Entrevista – Domingas de Paula Martins Caldas: “Se a gente juntar as sabedorias, chega em muitos lugares”

Foto: Raimundo Paccó

Com uma longa trajetória como ativista dos direitos das mulheres, a pedagoga Domingas de Paula Martins Caldas é a atual diretora do Departamento de Apoio à Produção – vinculado à Secretaria de Economia da Prefeitura de Belém (Secon) e voltado ao atendimento de produtores e produtoras agrícolas do município.

A agricultura urbana configura-se como uma estratégia relevante para a diversificação do acesso aos alimentos em Belém, considerando que 74% dos produtos que chegam à CEASA (principal entreposto de alimentos frescos da capital paraense) vêm de outros estados, notadamente São Paulo, Ceará, Bahia, Pernambuco e Minas Gerais.

Nascida em Cametá, interior do Pará, Domingas tem uma clara perspectiva da sua colaboração no campo da agricultura urbana e familiar: “Não sou agrônoma nem formada nessa área. Mas estou aqui porque o mais importante é ter abertura e habilidade para o diálogo. E isso eu sei fazer: ouvir cada pessoa, conversar com cada setor”, garante a fundadora do Grupo de Mulheres Brasileiras.

Instituto Escolhas: Como explicar a agricultura urbana de Belém para quem não vive na cidade?

Domingas de Paula Martins Caldas: A agricultura em Belém acontece nas ilhas, onde ainda existe espaço para plantar. Temos 39 ilhas e é nelas que estão os quintais produtivos. Lá, tu tem o tomate, a verdura, o cacau, o cupuaçu, o açaí, a pupunha e várias outras coisas. E aqui a gente tem também o extrativista, que vende os produtos apanhados das árvores e que não passam por um processamento. Tudo isso vem de barco, das ilhas até Belém. 

 

E como essa dinâmica comporta os grupos organizados? Cooperativas de produtores, por exemplo, estão estabelecidas?

Olha, o povo nessas comunidades está organizado do seu próprio jeito. Eles trabalham e, muitas vezes, produzem juntos. Então eles já estão organizados, de certa forma, para sobreviver. Mas também já perceberam que precisam de organização para melhorar a produção, vender melhor, lucrar mais e não desperdiçar. Aí, precisa de documentação e precisa ter alguma forma de associação para facilitar a busca do recurso. Essa é a organização que ainda está faltando. E nossa ideia é fazer isso de uma forma que eles sigam organizados, seja qual for o governo. Ultimamente, quando acaba um governo e entra o outro, o que tu plantou acaba ali. Não tem sustentação. 

 

De quantos produtores a gente está falando?

Só na Ilha de Mosqueiro, são mais de mil nos três assentamentos. Em Belém, como um todo, ainda não sabemos, mas é muita gente. E a coisa vai passando de pai para filho: às vezes, é uma família e são dois produtores, mas, daqui a um tempo, a mesma família já tem quatro produtores. E mora todo mundo junto, mas cada família tem a sua venda.  

Por isso, esse trabalho do Instituto Escolhas com a Prefeitura de Belém é muito importante*. Porque vai nos ajudar a organizar melhor o território e a conseguir enxergar como as pessoas se organizam dentro desse território.

 

Nessa organização conjunta, muito caracterizada pelas dinâmicas familiares, como a senhora inclui a questão de gênero no diálogo com os produtores rurais?

A questão da relação de gênero é uma coisa que a gente precisa e tem trabalhado porque tu vai mexendo aqui e, ali, vai se levantando o problema. Tu vai trabalhando o empoderamento aqui e logo o teu companheiro, teu marido, teu namorado tá achando que tá avançando demais. Aí, tu tem que trabalhar na ciência de que não pode ser assim. De que tem que discutir o lar. Têm que discutir juntos, o homem e a mulher, para ele entender que a mulher não é um objeto, mas um ser pensante e que, juntos, eles podem viver muito melhor, construir uma vida muito melhor para os seus filhos e para a sociedade. Então não é só discutir o lugar da mulher. É discutir tudo junto porque tudo vem junto. 

 

Tendo vivido tantos anos no ativismo pelos direitos das mulheres, a senhora diria que existe uma diferença entre o lugar da ativista e o lugar de integrante do governo que, em alguns casos, viabiliza o acesso a esses direitos?

Na minha experiência, não. O departamento onde atuo existe para apoiar os produtores rurais. Então eu falo com homens e mulheres que se organizam em cooperativa, que têm uma horta ou que trabalham com artesanato. No fim das contas, eu continuo lidando com pessoas. Eu vim do movimento social mesmo, da luta para ter água, asfalto, escola, luz, uma casa para morar e esgoto na rua. Na Secon ou no Grupo de Mulheres Brasileiras [fundado por ela em 1986], a luta segue sendo pela melhoria da condição de vida das pessoas. 

Eu não sou agrônoma, mas não deixo de ter aqui um técnico agrônomo, um técnico florestal ou um engenheiro de pesca para trabalhar comigo. Se a gente juntar as sabedorias, como eu costumo dizer, a gente chega em muitos lugares e constrói muitas coisas boas para todo mundo. 

 

*O Instituto Escolhas, em parceria com a prefeitura de Belém, está desenvolvendo um estudo sobre os desafios e o potencial da agricultura do município e sobre as características do sistema alimentar de Belém e região. O estudo – que deve ser lançado no segundo semestre de 2022 – tem como objetivo subsidiar a elaboração de políticas públicas de fortalecimento da agricultura urbana e periurbana na cidade, como estratégia de enfrentamento da pobreza, insegurança alimentar e de recuperação econômica sustentável do município.