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Escolhas Entrevista – Jaqueline Ferreira: “É injusto acreditar que a bioeconomia vai se levantar por si só”

Décadas de pesado investimento público fizeram do agronegócio brasileiro uma potência. Mas o que aconteceria se a bioeconomia recebesse a mesma atenção e os mesmos incentivos? Essa é a reflexão à qual nos convida Jaqueline da Luz Ferreira, doutora em Ciências Sociais e gerente de portfólio do Instituto Escolhas.  

Nesta entrevista, Jaqueline fala, ainda, sobre a repercussão do recente estudo que abordou a correlação entre o agronegócio brasileiro e os índices de desmatamento, coordenado por ela e lançado pelo Escolhas em fevereiro.

 

Instituto Escolhas: Todos os anos, o agronegócio publica números grandiosos de produtividade. Para alguns, esses dados evidenciam o desenvolvimento do país. Nesse contexto, qual é a importância dos números trazidos para o debate socioambiental? 

Jaqueline Ferreira: Os números do agro – de participação no PIB, volume recorde de safra e aumentos recordes de produtividade – dizem sobre a economia. Mas eles não dizem sobre a relação da economia com os recursos naturais, o meio ambiente ou os impactos socioambientais, que também são muito relevantes quando a gente aperta todas as chaves de análise do desenvolvimento sustentável. 

Em 2017, por exemplo, o Escolhas fez uma pergunta bastante genuína, cuja resposta não sabíamos. A pergunta era: se o Brasil, de fato, acabar com o desmatamento, qual o impacto disso no PIB? Naquele momento, quando o agro ainda afirmava a necessidade de desmatar para produzir, o estudo do Escolhas mostrou que esse impacto no PIB não chegaria a 1%. Ou seja, o discurso de que o Brasil não precisa mais desmatar para produzir alimentos não era tão claro naquele momento e, hoje, ele está na boca da ministra Tereza Cristina e de grandes lideranças do agronegócio. É para isso que vamos em busca dos números: para desmistificar a oposição entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento sustentável. 

 

O estudo “Como o agro brasileiro se beneficia do desmatamento?” , coordenado por você e lançado em fevereiro, gerou um certo mal-estar junto a pessoas ligadas ao setor agropecuário. Para elas, o documento traz uma leitura homogênea sobre um setor diverso. Como você analisa essa crítica e o que ela revela sobre o debate em torno da questão do desmatamento?        

Tem duas formas de responder isso. A primeira é por meio dos números do próprio estudo: 93,5% dos municípios brasileiros tiveram depreciação do preço da terra devido ao desmatamento, no período analisado. Então os produtores que decidiram expandir sua área de produção nesses municípios – lembrando que essa expansão só é possível graças à existência de áreas desmatadas, legal ou ilegalmente – pagaram pela terra menos do que pagariam se não houvesse desmatamento. O estudo também mostrou que 50% do volume total da desvalorização da terra ficou concentrado em apenas 61 municípios, localizados nas áreas de fronteiras agrícolas. O que isso significa na prática? Que os produtores que aumentaram suas áreas de cultivo se beneficiaram, mas aquele produtor que não pode ou não quis expandir a sua área produtiva foi prejudicado, já que sua terra perdeu valor.

Nesse sentido, os números do estudo mostram que tem, sim, diferenças em como o agronegócio se beneficia do desmatamento. A pesquisa também nos mostra como é sistêmica e estrutural a relação entre desmatamento e aumento da produtividade e competitividade do setor.

Agora, vamos falar da segunda resposta possível para entender essa reação do agro. É muito comum ver o agronegócio tentar se diferenciar quando a gente fala de desmatamento: “Ah, quem desmata são os outros, são os da fronteira, são os grileiros, são os que estão fora da lei”. Mas, ao mesmo tempo, a representação política desse setor no Congresso Nacional apoia projetos e emendas que fragilizam o controle do desmatamento.

 

Nesse caso, a atuação coesa termina por favorecer os produtores que optam pela abertura de novas áreas para produzir?

Exatamente. Veja o caso da rastreabilidade da produção agropecuária. Há décadas, fala-se  sobre a necessidade de rastrear a origem da soja, carne e de outros produtos. Temos tecnologia para isso. Temos sistema de monitoramento via satélite. Mas algumas frentes do agro se esquivam de uma rastreabilidade efetiva. E por quê? Porque é frágil essa afirmação de que o setor não está vinculado ao desmatamento. E vamos lembrar que esse setor vai além do produtor: a cadeia do agronegócio inclui frigoríficos, grandes compradores de grãos, distribuidores… 

 

Na edição de janeiro, entrevistamos a professora Luciana Fernandes Veiga e ela pontuou a força do discurso do agro, que foca na geração de empregos e divisas. Pensando nisso, que estudos poderiam oferecer uma narrativa capaz de evidenciar também a força econômica da floresta?

Desde 2020, o Escolhas vem propondo caminhos para destravar a agenda da bioeconomia. Sabemos que vai demorar muitos anos para que a economia da floresta em pé tenha um peso equivalente ao tamanho que o agro tem hoje. Por isso, é importante começar já a mudar a chave e reconhecer o potencial da bioeconomia, especialmente em um país megabiodiverso como o Brasil. 

Agora, é injusto achar que a bioeconomia vai se levantar por si só. Nem o agronegócio se levantou por si só: foram anos e anos de pesados investimentos do poder público. Então, se  nossos governantes entendem que a bioeconomia é um setor importante para o país – como nós da sociedade civil já entendemos – precisam direcionar recursos para isso. 

Para dar suporte a esse processo, o Escolhas vem analisando não só quais são as mudanças no marco legal que precisam ser feitas para destravar a bioeconomia, mas também quais são as atividades com mais alto potencial e o que precisa ser feito para que elas deslanchem. 

Neste momento, por exemplo, estamos trabalhando com o tema da assistência técnica e extensão rural para a cadeias produtivas da bioeconomia da Amazônia e levantando possibilidades sobre o que deve ser feito concretamente para que a assessoria técnica seja capaz de destravar os gargalos que essas cadeias encontram para produzir e comercializar. Vamos lembrar que foi esse o caminho que o país escolheu lá atrás, com a criação da Embrapa e todo o investimento tecnológico, para fortalecer e consolidar o agronegócio.

 

Em certa medida, estamos falando de uma outra visão de desenvolvimento para o país, correto?

Claro, porque não tem como a gente fazer essa discussão sem, de fato, entender que se trata de escolher construir um país diferente. Um país que investe na transição efetiva para uma economia de baixo carbono, que valorize a floresta em pé, as populações e seus conhecimentos tradicionais, o desenvolvimento local com inclusão social, e que esteja alinhada às questões de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. 

Então estamos falando, sim, de uma visão de país.

E para viabilizar isso a gente precisa, também, discutir quanto custa e de onde vem o dinheiro. Há dois anos, o Escolhas mapeou vários setores da bioeconomia no estado do Amazonas e, olhando para a origem dos recursos, descobrimos que se parte dos subsídios destinado à Zona Franca de Manaus fosse direcionada para a bioeconomia, geraria mais empregos do que a própria ZFM gera hoje. Precisamos disputar o orçamento público – assim como o agronegócio disputou lá na década de 1970 – para que o Brasil possa virar uma potência mundial da bioeconomia, como o país tem vocação para ser.

 

Toda essa potência, no entanto, convive com uma narrativa ambiental bastante pessimista no Brasil e no mundo. De um lado, somos o futuro. De outro, quase não há futuro. Considerando a relevância das eleições deste ano para a temática ambiental, o que sinalizaria um verdadeiro compromisso do presidente eleito com essa visão de país mais alinhada ao desenvolvimento sustentável? 

Bom, primeiro de tudo, é recolocar de pé o que foi destruído nos últimos três anos e reconstruir a política ambiental que a gente já tinha de proteção e conservação florestal. Para além disso, direcionar recursos para que a bieconomia se torne uma alternativa e, no futuro, até hegemônica na geração de emprego e renda e na composição do nosso PIB. 

Vou dar um exemplo simples: hoje, a gente consegue ver a presença forte das eólicas na matriz energética do país, mas isso é fruto de anos de investimento nessa área. Então o Brasil precisa se alinhar às tendências mundiais e enfrentar de frente a questão da crise climática. Isso inclui pensar na recuperação econômica que, para o Brasil, é crucial. Estamos com índices recorde de desemprego e de volta ao mapa da fome. Então é urgente focar naqueles setores que, alinhados ao desenvolvimento sustentável, vão gerar renda de forma mais distributiva e promover a inclusão social.