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Escolhas Entrevista – Luciana Costa e Thatyanne Gasparotto: Os bancos que não “esverdearem” seu balanço agora terão problemas para se recuperar no futuro.

Nesta edição, conversamos com Luciana Costa e Thatyanne Gasparotto, respectivamente, Senior Country Manager e diretora do hub Green & Sustainable Financing Solutions do Natixis, banco reconhecido pela gestão ativa da sua carteira de forma alinhada aos objetivos do Acordo de Paris. Para isso, a instituição conta com o Green Weighting Factor, instrumento que orienta a alocação de recursos com base no seu impacto climático.

“Com essa metodologia, a gente consegue avaliar exatamente qual é a contribuição das nossas operações para o aumento de temperatura global”, explica Costa. Hoje, eu só busco operações que vão esverdear o balanço. Eu não olho se eu estou ganhando mais ou menos dinheiro na operação em curto prazo. Não é isso que nos interessa”, garante.

 

Instituto Escolhas: Um banco que coloca a emergência climática entre os principais fatores de decisão para seus investimentos ainda não é a regra. Mas, no âmbito dos principais bancos centrais, a emergência climática já é vista como um assunto de política monetária que realmente pode afetar o sistema financeiro? Em outras palavras: essa ficha já caiu?               

Thatyanne Gasparotto: Eu diria que ainda não e isso é bem heterogêneo pelo mundo. Uma tendência importante que a gente observa em alguns bancos centrais tem a ver com os climate stress tests, um exercício que os bancos fazem de forma regular para verificar a resiliência do sistema financeiro e que insere componente climático. Então, eu dividiria essa sua pergunta em duas etapas. Sim, hoje existe muito mais entendimento dos bancos sobre o assunto do que se tinha há pouquíssimo tempo.  No entanto, a forma como a gente aloca capital não é simples e não é uma decisão binária, “sim ou não”.

Luciana Costa: Eu acho que uma pergunta boa para fazer para os bancos centrais é: vocês sabem qual é a trajetória da temperatura dos balanços dos principais bancos dos seus países? O balanço dos bancos americanos, por exemplo, contribui para o aquecimento do planeta dentro das metas do Acordo de Paris, de até 2°C até 2030, ou não?

Os bancos precisam saber qual é a trajetória de temperatura dos seus investimentos para conhecer o risco climático do sistema financeiro. Os presidentes dos grandes bancos brasileiros têm conhecimento desse dado? Porque o nosso CEO sabe em quantos graus Celsius o nosso balanço vai aquecer o globo até 2030 e ele está empenhado em reduzir a pegada de carbono do nosso balanço.

 

E como o posicionamento institucional do banco dialoga com a percepção ambiental dos seus clientes?

Luciana Costa: A gente costuma falar para os nossos clientes o seguinte: nós queremos usar o nosso balanço e o nosso dinheiro para lhe ajudar a melhorar a trajetória da temperatura da sua empresa. Porque a gente entende que mesmo as empresas que, hoje, têm um risco financeiro baixo vão ter que pagar alto para emitir carbono no futuro e, com isso, elas podem se tornar não competitivas. Isso significa que os bancos que não estiverem esverdeando o balanço vão ter problema de recuperação de crédito mais à frente.

Por isso, eu não busco as empresas somente pelo rating financeiro. Pois se a empresa tem um risco financeiro excelente, mas um risco ambiental muito alto, eu não devo investir nela.

 

Esse esverdeamento da economia é falado por muitos, mas feito por poucos. É realmente possível que a chamada economia verde transforme o modus operandi da economia atual, amplamente amparada nos combustíveis fósseis?                  

Thatyanne Gasparotto: Eu acho que os bancos têm um papel ativo nisso e nossa principal função é conseguir fazer uma transição com credibilidade para a economia inteira. Claro que nem só de energia renovável vamos viver, porque precisamos trazer, por exemplo, a siderurgia e a mineração, que vão produzir componentes essenciais até para que a gente tenha energia renovável. Então temos trabalho pela frente para estabelecer qual é “a cara” que esses setores precisam ter.

Mas precisa do engajamento e da vontade dos clientes também. No setor bancário, vejo de forma positiva essa série de compromissos, mas se o banco não souber exatamente o que está medindo, esse compromisso não vai passar de algo abstrato.

Luciana Costa: E outra coisa: financiar energia renovável e fazer marketing disso não é o suficiente. Na prática, isso não quer dizer muito.

 

O Instituto Escolhas elaborou alguns estudos que, justamente, oferecem ferramentas para ajudar bancos e instituições financeiras a incorporar os desafios socioambientais em suas contas e portfólios. Na opinião de vocês, por que é tão desafiador – para as instituições financeiras – olhar para os aspectos sociais e ambientais como indicadores de um bom investimento?

Thatyanne Gasparotto: A responsabilidade socioambiental, como o próprio nome diz, é uma responsabilidade. Mas responsabilidade é diferente de estratégia competitiva de negócios. Uma coisa é o que você tem que cumprir, seja por regulação, por ethos do negócio ou por princípios. Outra coisa é você transformar esses aspectos socioambientais no seu modelo central de negócio. Por que eu coloco esses dois pontos? Porque, algumas vezes, nesses mercados que são pouco amadurecidos, a gente vê as duas coisas sendo avaliadas da mesma forma. Vem a empresa e diz: “Ah, mas eu sou verde porque eu plantei centenas de árvores”. E a gente tem que responder: “Tá, mas você é uma mineradora. O quanto o seu negócio vai impactar aquele espaço?”

E, aí, eu destrincharia ainda mais a questão: hoje, do ponto de vista de aceitabilidade e padronização, existem métricas muito mais avançadas para a parte ambiental – e, dentro da parte ambiental, eu colocaria a parte climática especificamente – do que para os outros fatores do âmbito social. Até o mercado europeu está muito avançado na parte ambiental e no quesito transição energética, porém está muito atrasado na parte social.

E por que isso acontece? É científico: você tem um orçamento de carbono e tem as métricas. Há chances de estarmos errados? Sim, mas se a gente estiver errando é porque acredita que teremos mais tempo do que temos de fato.

Já o social tem o aspecto da subjetividade. No clima você não tem a subjetividade. Claro, você pode ter avaliações diferentes sobre como o clima impacta as pessoas, mas, de forma geral, o assunto é tratado com muita objetividade no mundo científico, enquanto o social não.

 

Considerando o momento político e econômico do Brasil, em que lugar o país se situa no ranking dos investimentos verdes? E qual é a visão de vocês sobre a influência do resultado das eleições deste ano no tema dos investimentos sustentáveis?    

Thatyanne Gasparotto: O mercado de finanças sustentáveis é autorregulado e nasceu da demanda dos investidores, principalmente daqueles de longo prazo, como fundos de pensão e seguradoras, que olham décadas à frente. E uma diferença importante entre o mundo corporativo e a esfera política é que as decisões do primeiro são tomadas, de novo, olhando décadas adiante. As decisões do setor privado têm essa característica porque o custo das mudanças é alto. E na esfera política, infelizmente, temos essa visão de mandato. Então eu diria que a minha perspectiva é positiva no sentido de que o mercado verde vai crescer independentemente de quem está no poder.

Claro, você pode ter líderes que fomentam melhor determinado ambiente de negócio, que aprovam políticas públicas favoráveis, mas, do ponto de vista do desenvolvimento de finanças sustentáveis, o mercado está sendo totalmente alavancado pelos investidores e pelo setor privado.

 

Luciana Costa: Mas o governante esperto, o governo inteligente, ele não vai adotar políticas públicas ou regulações sem olhar o que está acontecendo no mercado. Se o governo, na hora de fazer política pública e regulação, não entendeu o que está acontecendo no mercado, o país tem um problema e vira um “pária”.

Por isso, eu acredito que veremos a pressão do setor privado no Brasil para que o governo seja ambientalmente mais responsável. O grande problema do país é o desmatamento e a gente precisa enfrentar esse problema com políticas públicas, regulação e monitoramento. Teremos problemas se não fizermos isso.

 

Esse raciocínio amplia ainda mais a responsabilidade do mercado sobre a transição energética e sua urgência?   

Luciana Costa: A gente precisa ter uma autoridade monetária que regule o esverdeamento de balanço dos bancos. Isso vai depender do governo e pode acelerar a transição energética do país. Enquanto isso, o setor privado vai sobreviver e os investimentos vão acontecer. Se o país se posicionar melhor ou pior vai depender, sim, do Banco Central do Brasil olhar o que está acontecendo no Banco Central Europeu. Vai depender, sim, do governo pegar o dinheiro do financiamento do Plano Safra e financiar a agricultura de baixo carbono. Então eu acho que tem a dinâmica do mercado, que acontece independentemente do governo, e tem uma questão de país. Se o Brasil passar por essa revolução da energia, alinhado com as melhores práticas de matriz energética e de redução do desmatamento, imagina a quantidade de recursos que a gente pode atrair?

 

Que iniciativas inspiradoras e eficientes no campo dos investimentos sustentáveis vocês destacam na América Latina? 

Thatyanne Gasparotto: Nós atuamos na coordenação de sustentabilidade da quarta operação soberana* do governo do México. E um papel muito importante nas operações soberanas é sinalizar o mercado de finanças sustentáveis para o mercado em que se opera. Então, quando um governo vai lá e faz uma operação soberana, ele está sinalizando para o setor privado, ele está sinalizando para a indústria financeira que esse é o caminho.

 

* Título soberano é o nome dado a títulos de dívida emitidos por governos nacionais.