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Escolhas Entrevista – Sandra Buenafuente: “A bioeconomia será a economia da floresta se trouxer resultados positivos para quem vive na Amazônia”

Sandra Buenafuente tinha cerca de 14 anos quando viu, pela primeira vez, uma mina de bauxita a céu aberto. “Até então, eu conhecia o amarelo do rio Amazonas e o azul do Tapajós. Quando nós chegamos na mina, eu vi a água vermelha e os peixes mortos”, lembra a professora titular do Departamento de Economia da Universidade Federal de Roraima (UFRR). O impacto foi tamanho que o tema da mineração a acompanhou da graduação em Economia ao pós-doutorado no Centre for the Environment da Universidade de Oxford, na Inglaterra. 

Nascida em Santarém, no Pará, Sandra fez o percurso almejado por muitos pesquisadores. Após a graduação, na Universidade Federal do Pará, fez o mestrado e o doutorado fora do país, antes de retornar para ajudar a fortalecer o campo das Ciências Econômicas na sua região de origem. “Eu sempre soube que iria voltar e pesquisar para a Amazônia. E tenho muito orgulho de defender essa trajetória quando me perguntam: por que, com esse currículo, você está em Roraima?”

                    

Instituto Escolhas: Você se define como uma economista ecológica. O que isso significa?

Sandra Buenafuente: A economia ecológica entende o sistema econômico como subsistema do sistema natural, que é o meio ambiente em si. É diferente da economia ambiental, que tem origem na teoria neoclássica e trata o meio ambiente como mais um insumo dentro do sistema econômico. 

Eu acredito que o desenvolvimento deve ser integrativo e, de certa forma, acredito que as condições para que esse desenvolvimento se estabeleça virão pelo próprio encaminhamento do mercado. 

 

Como assim?

Porque o mercado já começa a perceber que seguir pelo crescimento exponencial não vai, necessariamente, gerar mais lucro. 

Veja: a economia é importante porque explica a relação da sociedade e suas necessidades humanas ilimitadas com a utilização dos recursos limitados do nosso planeta. E, nesse processo, ela explica também a continuidade da vida, a partir dos fatos históricos, de teorias e da realidade cotidiana.

Portanto, a economia em si não tem antagonismo com o meio ambiente. O que suscita o conflito são as escolhas sobre a utilização dos recursos ambientais como fatores predominantes de políticas de crescimento econômico. 

Mas nós temos, sim, muitas possibilidades de modelo de crescimento e políticas integrativas que respeitem as especificidades locais, fazendo estudos estratégicos, utilizando as melhores tecnologias, primando pela história e pelo desenvolvimento local. 

 

Ao longo da sua trajetória, você tem encontrado muitos economistas com esta visão?                        

Raramente, porque os cursos de economia ainda priorizam falar em crescimento, mercado de valores, mercado cambial. Quando se fala de economia de baixo carbono, aproveitamento dos serviços ambientais, economia verde, bioeconomia, é como se fosse algo que viesse apenas das associações ou dos ambientalistas.

 

Muito tem se falado sobre a bioeconomia (o próprio Instituto Escolhas tem, inclusive, uma linha de publicações sob o título “Destravando a agenda da bioeconomia”). O que você acha desse conceito e de como ele dialoga com o atual sistema econômico?

A bioeconomia pode ser uma caminho mas está correndo muito risco de ser validada pelas ondas da sustentabilidade, de ser incorporada pelo sistema ao qual ela quer se opor. Bioeconomia pode ser a economia da floresta se for construída com respeito à diversidade local e se trouxer resultados positivos para a população que vive e trabalha na Amazônia. 

Dentro do capitalismo ou dentro da bioeconomia, nós temos que trabalhar com a resistência. Não pode ser permitido que a bioeconomia transforme a vida das pessoas de acordo com os clichês impostos pelo mercado. O que eu sou contra é que os grandes empresários se reúnam para discutir a bioeconomia da floresta, mas  não considerem, de fato, as opiniões de quem vive na floresta, dos principais donos dos recursos, para tomar suas decisões. 

  

Você participou da última banca de seleção da Cátedra Escolhas. Alguma dica para os mestrandos que estão concorrendo no edital em curso, cujas inscrições se encerram no dia 10?   

Eu acho muito importante que as propostas enviadas não estejam simplesmente justificando a economia de mercado com a visão da economia neoclássica. Ou seja, que a gente possa avaliar também pesquisas que olhem para as novas economias, que tragam também os fundamentos da economia ecológica, da economia dos povos indígenas, da economia ribeirinha, da vida das pessoas que conhecem a floresta, que vivem na floresta e que trabalham pela floresta. Em outras palavras, pesquisas que olhem diretamente para a importância da Amazônia para os amazônidas, para o Brasil e para o mundo.