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Hortas urbanas geram impactos sociais positivos na Zona Leste de São Paulo

Legenda - São Mateus, Zona Leste do Município de São Paulo Crédito - Marcela Ferreira

Áreas espalhadas sob linhas de transmissão ou em escolas têm produção 100% orgânica 

Por: Eduardo Geraque

Uma parceria em que todos ganham está cada vez mais ativa em 27 terrenos que eram subutilizados na zona leste paulistana, mas passaram a produzir até 31 tipos de hortaliças e legumes de forma totalmente orgânica. O projeto administrado hoje pela ONG Cidade Sem Fome beneficia diretamente 392 pessoas, além de todos os familiares, que se transformaram em agricultores urbanos de uma das maiores metrópoles mundiais.

“O nosso principal objetivo é gerar benefícios para as pessoas que estão em condições de vulnerabilidade social por meio da agricultura urbana”, afirma Hans Dieter Temp, presidente e fundador da iniciativa. Segundo números da instituição, quem passa a trabalhar nos projetos na produção de alimentos consegue manter uma renda que varia de 1 a 2 salários mínimos. São pessoas que antes estavam desempregadas e que moram em um raio de até 4 quilômetros das hortas.

Há aproximadamente 15 anos diante da iniciativa, Temp afirma que o projeto passou por um redesenho nos últimos anos. Com o objetivo de produzir em escala maior, as áreas escolhidas para a produção de alimentos tiveram que ficar maiores do que antes, quando recebiam entre uma e duas famílias no máximo. Atualmente, elas têm em média 8,5 mil metros quadrados.

“Em São Paulo, a questão logística é muito complicada. Para um restaurante, por exemplo, quanto mais produtos ele conseguir encontrar em um mesmo ponto de venda melhor vai ser”, explica o fundador da Cidade Sem Fome.

A ONG é responsável por toda a organização do processo, que envolve a escolha das áreas, a capacitação dos trabalhadores e a captação de recursos. Os produtos são vendidos pelos próprios cooperados em um sistema de autogestão. “Nós pesquisamos as áreas, vemos quem são os proprietários, e negociamos com eles o uso dos terrenos de forma totalmente legal por meio do comodato”, diz Temp. De acordo com o gestor da ONG, a maioria das áreas pertencem a empresas de distribuição de energia ou a construtoras imobiliárias. “Temos uma relação muito boa de parceria com todos”, diz.

Segundo a Enel, empresa de energia, dona de duas áreas usadas pela ONG em São Mateus, a empresa tem toda a intenção de continuar apoiando o projeto. “A Enel Distribuição São Paulo vê esses projetos de forma positiva. A companhia sabe que os espaços urbanos estão limitados. Essas áreas, por meio do cultivo de alimentos orgânicos, aumentam a qualidade do consumo no local e contribuem com a formação de pessoas e geração de renda”, informa a empresa por meio de sua assessoria de imprensa. Os contratos de comodato com os responsáveis da horta tem uma duração de cinco anos.

Atualmente, explica Temp, a ONG administra três tipos de hortas. Em certos casos, a produção feita nos terrenos da zona leste, região onde vivem mais de três milhões de pessoas e que tem altos índices de desemprego e de pobreza, é vendida para a comunidade em geral. Em outros, as empresas patrocinadoras de uma área específica podem dar o destino que quiserem para os alimentos que forem colhidos naquele mesmo espaço.

O terceiro modelo de negócio desenvolvido pela Cidade Sem Fome envolve a montagem de hortas em escolas públicas da zona leste. Hoje, existem 46 projetos nestes moldes, que impactam 12,6 mil estudantes. “As crianças muitas vezes não têm noção de onde vem a alface que elas comem. Ao perceberem que o Sol e a chuva têm um papel fundamental no crescimento da alface eles passam também a interagir com o meio ambiente. Além da educação ambiental, outra iniciativa é conseguir fazer uma mudança nos hábitos alimentares dos alunos. Como eles constroem e mantêm a horta, colhem e depois preparam os alimentos na cozinha da escola uma série de tabus são derrubados. Entre eles, de que as hortaliças não podem ser gostosas.” Essa iniciativa de levar as hortas para dentro dos estabelecimentos de ensino, segundo Temp, tem aumentado o vínculo entre as comunidades e as escolas, por causa de uma maior participação dos pais dos alunos no processo.

Nos projetos feitos tanto na escola quanto nos terrenos de terceiros, a ONG é responsável por todo aporte de recursos. “O governo não nos auxilia em nada. Os recursos para os projetos são captados em empresas, em editais, em fundações e até no exterior”, afirma Temp. Segundo ele, mesmo no caso das escolas, não há contrapartida dos órgãos públicos. No caso das hortas urbanas, a ideia é sempre dar início ao projeto para depois, quando ele for autossustentável, a ONG se retirar para começar novos ciclos em outros terrenos.

“Nas hortas urbanas, a proposta é sempre incubar o projeto por um determinado tempo e transformá-lo para que seja sustentável financeiramente. A Cidade sem Fome ajuda na capacitação dos beneficiários na produção dos legumes e verduras nas hortas, como também capacita pessoas do grupo para serem os gestores do negócio. Abrimos ainda pontos de vendas – associação, hortifruti, banca, venda para lanchonetes, restaurantes e empresas – para comercialização dos produtos. Geralmente essas estruturas são colocadas no nome de beneficiários, o que faz com que eles se tornem empreendedores”, diz Temp.

Para conseguir sustentar a renda dos trabalhadores das hortas, a ONG, segundo o presidente da instituição, desenvolveu ao longo do tempo uma série de estratégias de venda. Uma das mais importantes é montar uma espécie de sacolão nas vizinhanças dos terrenos. “A zona leste de São Paulo tem um comércio muito ativo. No nosso ponto de venda de uma das nossas maiores hortas, em São Mateus, existem muitos restaurantes e lanchonetes, eles são grandes consumidores dos nossos produtos”, diz Temp. Para atrair ainda mais a atenção do freguês, é comum os pontos de venda terem à disposição dos consumidores produtos que nem na horta são produzidos. “A mandioca, por exemplo, é um produto de ciclo longo. Como nós damos preferência para os itens de ciclo curto, neste caso, nós temos parcerias com produtores de outras cidades, como Suzano, Mogi das Cruzes e Arujá que normalmente têm dificuldades no escoamento da produção.”

Outras iniciativas também estão mostrando bons resultados segundo Temp. “Sempre tive preocupação de atingir outros bairros da cidade”. Estratégias de venda por meio de aplicativos como o WhatsApp ou em condomínios com um grande número de moradores também estão se mostrado viável para a venda dos produtos.

“São Paulo não está nem começo do desenvolvimento da agricultura urbana. Precisamos de mais políticas públicas para estimular esse setor, assim como já ocorre em outros países. Aqui temos boas condições. Além de muitas áreas, o clima também permite produzir o ano inteiro.” Segundo o fundador da Cidade Sem Fome, países como a Alemanha, por exemplo, já estão bem na frente quando o assunto é produção de alimentos dentro das cidades. “A Universidade Técnica de Berlin produz todos os anos até 40 especialistas em agricultura urbana. É um grupo treinado, entre outras coisas, para desenhar políticas de estímulo ao setor”, afirma Temp.

 

Ouça entrevista no episódio #11 do podcast Escolhas no Ar “Hortas urbanas transformando a vida das pessoas em São Paulo”, disponível no Spotify e SoundCloud