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A tragédia de Mariana e os danos à saúde mental são tema de dissertação de bolsista da Cátedra Escolhas

Dados mostram que nos municípios afetados as internações por transtornos psicológicos chegaram a dobrar

No dia 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, na cidade de mineira de Mariana e controlada pelas empresas Samarco, Vale do Rio Doce e BHP, liberou 34 milhões de metros cúbicos de lama de rejeitos da extração de minério de ferro. A tragédia afetou diretamente 41 municípios nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo e deixou um rastro de dezenove mortos, centenas de pessoas desabrigadas e mais de 600 quilômetros de extensão de água contaminada.

Porém, as consequências desse desastre histórico ultrapassam o que é visível e têm impactado a saúde mental dos moradores da região, em especial a população mais jovem, o que pode prejudicar sua inserção no mercado de trabalho e produtividade. Essas são as principais conclusões da dissertação “Desastres e saúde mental: evidências do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Brasil”, de autoria da economista Liz Matsunaga.

Bolsista da Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente, Liz obteve grau de mestre em economia pela USP no segundo semestre de 2020 ao projetar os impactos para a saúde psíquica da população em municípios diretamente e indiretamente afetados pelo desastre, que acaba de completar cinco anos.

 

Conheça o estudo

Para quantificar os impactos do rompimento da barragem de Fundão na saúde mental dos moradores dos municípios atingidos em Minas Gerais e Espírito Santo, Liz usou o número de internações e de atendimentos médicos, comparando municípios afetados versus municípios não-afetados, antes e depois do desastre. Além disso, fez um levantamento de estudos que analisam os impactos de desastres na saúde mental, referenciando pesquisas empíricas desenvolvidas após os acidentes nucleares em Chernobyl e Fukushima e o furacão Katrina.

Os resultados dos atendimentos da região do desastre foram apresentados de acordo com três recortes geográficos, usando como referência a Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, conhecida por Candonga, e os municípios indiretamente afetados. O reservatório é um referencial importante porque, enquanto nos 100 primeiros quilômetros situados imediatamente após a barragem a altitude maior acelerou a velocidade e aumentou a força da onda de lama (o que provocou um impacto destrutivo muito mais agudo), a usina de Candonga conseguiu segurar aproximadamente dois terços dos rejeitos, diminuindo o potencial de destruição.

 

Resultados

No trecho anterior ao reservatório de Candonga, foi possível perceber um aumento das hospitalizações para diferentes grupos de doenças mentais, no médio e curto prazo. Já a longo prazo, observou-se um aumento nos números de atendimento do Centro de Atenção Psicossocial (CAPs) para doenças emocionais e comportamentais, que se intensificaram dois anos após o rompimento da barragem.

No trecho abaixo de Candonga, onde ficam os municípios um pouco mais afastados da barragem do Fundão, houve um aumento de quatro vezes nas internações por doenças mentais, com impactos mais acentuados nos jovens. Ao analisar estes dados, a economista destacou a correlação entre saúde mental e produtividade no trabalho, alertando para efeitos de longo prazo com o comprometimento da capacidade de trabalho da mão de obra da região (capital humano).

Já nos municípios indiretamente afetados, os atendimentos para doenças relacionadas a estresse e esquizofrenia chegaram a dobrar.

Apesar dos dados alarmantes, a autora destaca que os moradores dos municípios atingidos sofrem para conseguir seus direitos, previstos em políticas de recuperação e ações compensatórias.

O programa de reassentamento, por exemplo, deveria atender 512 famílias. Porém até o final de 2019, nenhuma delas tinha sido de fato reassentada e muitas foram colocadas em lares temporários, por vezes em difíceis condições de habitação. O auxílio mensal que deveria ser dado a pessoas que perderam o emprego por conta do desastre, como pescadores e agricultores, só foi viabilizado três anos depois e a avaliação negativa se estende ao programa de indenização, que deveria pagar as famílias pelos pertences perdidos.

De acordo com a bolsista, esse contexto de ineficiência do plano de contingência gera um estresse pós traumático que vai além do acidente em si e as consequências para saúde mental dos cidadãos podem ficar ainda maiores no longo prazo.

 

Recomendações

O que aconteceu em Mariana não foi um fato isolado. Nos últimos 20 anos, aconteceram pelo menos cinco desastres envolvendo rompimentos de barragens de rejeito de mineração só no estado de Minas Gerais, sendo o mais recente o rompimento da barragem em Brumadinho, em janeiro de 2019.

Diante do exposto, o trabalho propõe três medidas a serem adotadas em planos contingenciais:

1) providência imediata de auxílio mental após o acontecimento;

2) inclusão de políticas de saúde mental nos planos de recuperação dos afetados, tanto no médio quanto no longo prazo;

3) desenho de ações de saúde mental especificamente voltadas para pessoas mais jovens

O trabalho de Liz Matsunaga foi aprovado em banca pública, composta pelos economistas Rudi Rocha e André Portela, professores de Políticas Públicas na FGV, e Ariaster Chimelli e Paula Carvalho Pereda, professores da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo. Assista à apresentação da defesa da dissertação na íntegra em: https://www.youtube.com/watch?v=goJjbQv-Qf8&t=1803s

 

Sobre a Cátedra

A Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente, que tem o Itaú como um dos patrocinadores, oferece bolsas de mestrado e doutorado para estudantes de pós-graduação interessados em estudar Economia em sua interface com o Meio Ambiente. Conheça os bolsistas e os trabalhos desenvolvidos por eles nas redes sociais do Instituto Escolhas.

Desde 2016, a Cátedra já beneficiou 23 bolsistas de diversos estados do Brasil, sendo que 14 já defenderam a tese.

 

 

Acesse o conteúdo em inglês: https://bit.ly/Mariana-Cátedra-EN